sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Análise do Filme “O Patriota” como elemento do imaginário sobre a Revolução Americana

 Análise


            O filme retrata uma situação claramente maniqueísta, tão ao gosto das produções cinematográficas: é uma luta entre o bem e o mal, em nenhum momento paira qualquer dúvida sobre quem são o mocinho e o vilão.
            O drama pessoal de Benjamin Martin (o personagem de Mel Gibson) representa o universo de representações sobre a própria nação norte-americana no contexto descrito: Benjamin vai à Filadélfia participar de um congresso que vai decidir pela adesão da Carolina do Sul à guerra contra a Inglaterra; a despeito de sua simpatia pelo movimento de independência, ele se opõe à guerra e entra em sério conflito com seu filho Gabriel, que decide se alistar.
            A cena do congresso é significativa: apesar da imensa anglofobia que domina a cidade (bonecos vestidos como soldados ingleses são vistos sendo queimados na frente dos prédios públicos), a assembléia debate democraticamente a questão: até mesmo um americano leal à coroa inglesa fala com inteira liberdade.
            Quando o representante do exército continental fala em lutar pela nação causa uma curiosa confusão entre os assistentes, claramente identificados como cidadãos da Carolina do Sul. “Que nação é essa?”, indagam. “Uma nação americana”, responde um dos assistentes. “Somos cidadãos de uma nação americana, e nossos direitos estão sendo ameaçados por um tirano a 3.000 milhas daqui”.

            A fala de Benjamin contrária à independência retrata o pensamento libertário da época:

 “Porque se livrar de um tirano a 3.000 milhas daqui para cair nas mãos de 3.00 tiranos a uma milha daqui? Legisladores eleitos podem cercear os direitos de um homem tão facilmente quanto um rei.”

            Benjamin é contrário aos impostos ingleses e favorável ao “auto-governo das colônias”, mas decididamente se opõe a uma guerra contra a Inglaterra. O representante do exército declara: “Se nossos princípios exigem a independência, a guerra é o único caminho”. Ao final, Benjamin esclarece sua oposição: seu papel como pai (suas obrigações morais) se sobrepõe às suas obrigações como cidadão: “Sou pai, não posso me dar ao luxo de ter princípios”.
            Seu filho mais velho, Benjamin, contraria suas ordens e decide se alistar.
            O conflito Benjamin x Gabriel alegoriza a imensa divisão que havia entre os próprios colonos americanos quanto à questão de combater contra a Inglaterra, como aparece retratada no filme no resultado da votação pelo conflito: 28 votos contra 12; Willi Adams avalia entre 80.000 e 100.000 o número de pessoas que abandonaram as colônias rebeldes durante o conflito (Adams, p. 26); o texto de Bernard Vincent informa que até 1775 a idéia de independência era tremendamente impopular e “o homem que se pronunciasse a seu favor na presença de terceiros estaria se arriscando” (Vincent, p. 50); o próprio Thomas Paine é adversário da idéia nesse periodo.
           
            A primeira parte do filme retrata os americanos lutando à maneira européia e sofrendo sucessivas derrotas.
            Passaram-se dois anos e o conflito logo chega à propriedade de Benjamin, na Carolina do Sul; suas terras são ocupadas pelo exército inglês; os britânicos se comportam de forma desumana e na ocasião Gabriel é feito prisioneiro e outro filho de Benjamin, Thomas, é assassinado pelo coronel Willian Tavigton. Diante de tamanha violência Benjamin decide lutar.
            A invasão da propriedade de Benjamin e os excessos dos ingleses representam a forma como os colonos visualizam a situação: os protestos pacíficos dos colonos contra as taxações e um conjunto de medidas arbitrárias por parte do governo britânico são reprimidas violentamente, como na ocasião do Massacre de Boston, em 1770; diante da violência dos ingleses e do fracasso das negociações não resta outro recurso que a rebelião armada; o recurso discurso é assim apresentado por Willi Adams: “a revolução americana (...) é o último ato desesperado de resistência de colonos explorados” (Adams, p. 15).

            O personagem Benjamin constitui uma clara representação idealizada do colono norte-americano: ele é um pacífico agricultor devotado inteiramente à família; seu comportamento está impregnado de um forte senso moral de dever; no filme ele é um pai que educa sozinho seus sete filhos depois do falecimento de sua esposa, Elizabeth. Seu elevado senso de moral e justiça é mostrado nas cenas sobre sua propriedade: é um pai preocupado em educar seus filhos através do exemplo; os negros vistos trabalhando em suas plantações sugerem que seja um proprietário de escravos; mas quando as forças inglesas chegam e anunciam sua liberdade, um deles logo esclarece que são trabalhadores livres assalariados. Benjamin lembra exatamente a forma como Tocqueville representa o povo norte-americano em Democracia na América: “(...) as conquistas do americano se fazem com a charrua do agricultor, as do russo com a espada do soldado” (Losurdo, p. 94).
            Há outra dimensão evidente no filme: a enorme importância de que se reveste a “religião civil”, essa apropiração de valores protestantes que é tão singular na cultura americana (Oliveira, p. 13), na formatação do comportamento social do colono; o profundo senso moral da sociedade da época é retratado, por exemplo, na rígida etiqueta social que impede a aproximação entre o viúvo Benjamin e sua cunhada solteira, Charlote Seltton, a despeito da evidente “química” existente entre os dois personagens; outro exemplo significativo está no noivado entre Gabriel e Anne Howard: durante um intervalo nos combates Gabriel é hospedado na casa dos pais da noiva; a condição para poder dormir na casa é que ele seja costurado num saco que cobre todo seu corpo, para evitar qualquer contato físico entre os noivos durante a noite!
            Aqui se abre uma dicotomia interessante: ao mesmo tempo em que Benjamin e sua família representam uma espécie de inocente pureza cristã do colono americano, impregnado de altos valores morais e senso de justiça, Benjamin também representa um outro “eu” oculto, cuja lembrança é extremamente dolorosa. A “sombra” de Benjamin está representada pelo periodo em que ele lutou lado a lado com indígenas simpáticos à coroa inglesa contra os colonizadores franceses e seus próprios aliados autóctones; aqui ele surge como o colono fronteiriço que constitui uma síntese do que há de melhor nas duas culturas; ele assimila toda a habilidade indígena em lidar com a natureza do novo continente, suas capacidades guerreiras, e as combina harmoniosamente com a estratégia militar européia e os valores morais cristãos.
            Ele é aqui o que Frederick Turner retrata como a transformação do europeu em americano:

            “O resultado é que, até à fronteira, a inteligência americana deve as suas caracteristicas marcantes. Essa rudeza e força combinadas com a perspicácia e curiosidade que são, por sua vez, prática inventiva da mente, rápida para encontrar expedientes, que se agarram magistralmente às coisas materiais, sem nada no campo artístico, mas poderosa para efetuar grandes fins (...)” (Turner, in “o significado da fronteira na história americana”)

            Significativamente, a despeito de utilizar magistralmente o fuzil, a arma preferida de Benjamin é uma machadinha indígena que ele utiliza com grande violência, relíquia dos tempos das guerras com os franceses; que nos remete ao texto de Guazzelli:

            “O modelo do ‘civilizador’ encontra em Boone a figura típica do fronteiriço, que para superar os selvagens assemelha-se aos mesmos em hábitos, resistência às adversidades do ambiente e exercendo a brutalidade quando necessário, cioso de sua importância para o país (...). Daniel Boone, além de tudo, foi um destacado partisan durante a Revolução Americana: o homem da fronteira era também um dos fundadores da nação americana”. (Guazzelli, p. 130)

            Enquanto frontiersman, Benjamin é superior ao europeu. Três figuras européias da trama retratam isso com clareza: a primeira delas é o coronel William Tavington, responsável pela morte de dois filhos de Benjamin. Tavington é apresentado como um carreirista interesseiro, cruel e sádico; é desprovido de valores éticos; num dos momentos mais dramáticos da trama ele aprisiona famílias de colonos dentro de uma igreja e incendeia o prédio. A representação é evidente: o inglês não tem respeito nem pela vida humana nem pela religião, ambas tão caras ao colono.
            Enquanto Benjamin coleciona vitórias militares a partir de estratagemas criativos (um deles inclui uma troca de bonecos de feno vestidos como soldados ingleses por combatentes da milícia), Tavington somente sabe lutar com extrema brutalidade e covardia, expressa pela absoluta vantagem de recursos militares de que dispõe.
            O superior de Tavington, general Lord Charles Cornwallis, é representado como um aristocrata; fiel à sua origem nobre, Cornwallis também possui senso de justiça e de ética militar; se opõe aos excessos de Tavington, argumentando de forma pragmática: “esses colonos são nossos irmãos; depois que o conflito terminar restabeleceremos o comércio com eles”; mas, ao contrário de Benjamin, que mesmo nos momentos mais difíceis coloca seus valores morais acima das questões militares, o orgulho do lorde inglês fala mais forte que seus valores: diante da humilhação de ser repetidamente vencido por um bando de colonos ignorantes, Cornwallis dá carta branca para que Tavington use táticas genocidas contra os americanos.
            O terceiro europeu é aliado dos americanos, o francês Jean Villeneuve; o filme é mais benevolente com ele, e o personagem inspira simpatia pela maneira atrapalhada como é representado; mas a mensagem é clara: Villeneuve conhece apenas a forma européia de fazer guerra, que no contexto é muito inferior às estratégias de guerrilha indígena conduzidas por Benjamin. O Patriota, a despeito disso, faz enormes progressos ao retratar o apoio francês ao movimento norte-americano; diversos outros filmes retratam o conflito como uma luta exclusivamente entre os colonos americanos e a maior potência militar da época.

            Há outros dois personagens que merecem destaque: o primeiro é um escravo, Occam, que foi oferecido por seu proprietário para lutar na guerra de independência; seu proprietário assim o define: “ele não é experto, mas é forte como um touro”. Occam é discriminado por um colono branco a quem ele vai salvar a vida durante uma retirada; o colono então vai passar a tratá-lo como um igual. Inicialmente obrigado por seu proprietário a lutar, Occam passa a desenvolver um espírito patriótico quando fica sabendo de um decreto de George Washington que ordena a libertação dos escravos que lutem no exército continental.
            Tal como Benjamin, Houcar alegoriza no filme uma dinâmica da própria nação: o processo de incorporação do negro à nação americana. A ele pertence a mensagem de esperança, no final da história; ele aparece à frente de um grupo de homens brancos que constroem a nova casa de Benjamin; em nome do grupo ele diz: “Gabriel disse que se vencermos essa guerra poderemos construir um mundo novo. Decidimos começar aqui mesmo”.  O filme está, evidentemente, representando o mito ideal do nascimento da “nação da liberdade” que é tão caro aos norte-americanos; essa assimilação é na verdade muito posterior à própria Guerra Civil, quase um século depois.
            O outro personagem é o americano que havia se declarado leal à Coroa no inicio do filme; agora alistado no exército inglês como o capitão Wilkins; ele aparece no filme sendo discriminado por oficiais ingleses; Tavington se refere a ele como “mais um da colônia”. No afã de conquistar a confiança dos ingleses ele vai comandar a operação mais infame da película, queimando civis presos numa igreja. Wilkins é aqui a alegoria do traidor; tendo traído a sua pátria, perde seu norte, perde progressivamente todos seus valores morais.
            Finalmente, Gabriel pode ser interpretado como uma alegoria da pureza de ideais da nova nação; sua atuação mais significativa ao longo do filme se dá quando ele recupera uma bandeira norte-americana abandonada no campo de batalha; ele se ocupa de costurar todos seus remendos nos intervalos das batalhas, enquanto faz preleções apaixonadas sobre a nova nação que vai surgir para personagens como Houcar; quando ele é morto Benjamin pensa em abandonar a luta, desanimado. Mas a visão da bandeira restaurada por Gabriel lhe dá forças para voltar ao combate; Benjamin, que até então faz uma luta por vingança, agora luta pelos novos ideais representados pela bandeira; o frontiersman, o americano mais autêntico, adotou agora de corpo e alma os ideais da nova nação americana.

Bibliografia

ADAMS, Willi. Revolucion y fundacion del estado nacional, 1763-1815.

GUAZZELLI, César A. B. Fronteiras americanas na primeira metade do século XIX: o triunfo das representações nos Estados Unidos da América.

LOSURDO, Domenico. Democracia ou Bonapartismo: triunfo e decadência do sufrágio universal.

OLIVEIRA, Lucia. Americanos: representações da identidade nacional no Brasil e nos EUA.

TURNER, Frederick J. O Significado da fronteira na historia americana, 1893.

VINCENT, Bernard. Thomas Paine: o revolucionário da liberdade.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Acervo digital disponibiliza toda a obra de Paulo Freire. Estão disponíveis para download gratuito vídeos de aulas, conferências, palestras, entrevistas, artigos e livros do educador.



     O Centro de Referência Paulo Freire, dedicado a preservar e divulgar a memória e o legado do educador disponibiliza vídeos das aulas, conferências, palestras e entrevistas que ele deu em vida. 
A proposta tem como objetivo aumentar o acesso de pessoas interessadas na vida, obra e legado de Paulo Freire. Para os interessados em aprofundar os ensinamentos freirianos, o Centro de Referência também disponibiliza artigos e livros que podem ser baixados gratuitamente.

Educação como liberdade

     Internacionalmente respeitado, os livros do educador foram traduzidos em mais de 20 línguas. No Brasil, tornou-se um clássico, obrigatório para qualquer estudante de pedagogia ou pesquisador em educação. Detentor de pelo menos 40 títulos honoris causa (concedidos por universidades a pessoas consideradas notáveis), Freire recebeu prêmios como Educação para a Paz (Nações Unidas, 1986) e Educador dos Continentes (Organização dos Estados Americanos, 1992).

terça-feira, 4 de junho de 2013

Agronegócio no Brasil

Via Campesina no Brasil


APRESENTAÇÃO

Companheiras e companheiros, militantes dos movimentos sociais do campo O objetivo dessa cartilha é reunir informações que permitam aos nossos militantes entender a evolução da organização capitalista da agricultura brasileira e a natureza desse novo modo de organizar, que a classe dominante vem chamando de agronegócio.
Agronegócio é qualquer operação comercial realizada com produtos agrícolas, mas no Brasil, virou a denominação de um modelo próprio de organizar a agricultura na forma de grandes fazendas modernas, com pouca mão-de-obra, com monocultura, que se especializam nas exportações.
Somos bombardeados, diariamente, com a propaganda sobre os fantásticos benefícios desse modelo de agricultura; assim, procurou-se analisar as verdadeiras características desse modo de produzir e seu antagonismo com a forma dos trabalhadores de organizar a produção de alimentos, o bem estar da população rural e sua fixação no meio rural.
Demonstramos com dados estatísticos, reunidos pelos estudiosos durante a elaboração do Plano Nacional de Reforma Agrária que a importância e participação desse modelo do agronegócio na produção, no consumo de máquinas agrícolas e no emprego rural é bem menor do que a propaganda, e que a agricultura camponesa é ainda a solução dos problemas sócio econômicos do meio rural.
Apresentamos, também, algumas denúncias que espelham como alguns fazendeiros do agronegócio se comportam, com seus crimes contra os trabalhadores, contra fiscais do Ministério do Trabalho e contra o meio ambiente. Esperamos que o estudo e o debate da cartilha nos ajude, a entender melhor a verdadeira disputa que existe na nossa sociedade. A disputa entre dois projetos políticos: um que subordina nossa economia e nossa sociedade, nossa cultura ao capitalismo internacional, aos bancos e transnacionais, e que tem sua versão agrícola no agronegócio e um outro projeto de desenvolvimento nacional que coloque no centro das prioridades da economia: o trabalho, o bem-estar das pessoas e a distribuição de renda, que tem na sua versão agrícola, a implementação da reforma agrária e o predomínio da agricultura camponesa. Essa é a decisão que a sociedade brasileira precisa tomar, e essa decisão perpassa as universidades, os intelectuais, a imprensa, as igrejas, os setores organizados de nosso povo e o próprio governo Lula.

Bom estudo!

I. A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA AGRICULTURA
BRASILEIRA

1. O modelo agroexportador

Se olharmos para nossa história, podemos ver que nesses 500 anos de colonização, e de formação da civilização brasileira e de ocupação de nosso território, tivemos a rigor apenas três grandes modelos econômicos adotados na nossa economia e na nossa agricultura. Esses modelos econômicos foram variações, formas particulares de organizar a produção dos bens e mercadorias em nossa sociedade, sob a égide do modo de produção capitalista, imposto a este território e a nossa sociedade desde que aqui chegaram os europeus em 1500.
No período histórico conhecido como colonialismo, quando fomos colônia de Portugal, e que grosso modo vai de 1500 até quase o final do século 19, ou seja, até a proclamação da República, toda a produção de nossa sociedade era organizada em torno da produção de produtos agrícolas destinados à exportação para a metrópole européia. Assim, o colonizador impôs ao nosso povo e ao nosso território que a prioridade era produzir bens de que eles precisavam e não do que o nosso povo precisava. As melhores terras, as mais férteis, as mais próximas do litoral e dos portos de navios, foram induzidas para que se produzissem os produtos de que eles precisavam. E aqui se implantou então as culturas de verão, que a Europa não conseguia produzir em função do seu rigoroso inverno. E toda a economia passou a funcionar em torno do cultivo da cana, do algodão, da pecuária extensiva, para exportar o couro (a carne não lhes interessava), do cacau e, mais tarde, do cultivo do café. E também a extração dos minérios que lhes interessavam, basicamente o ouro e a prata.
O capitalista-colonizador organizou uma forma particular de produzir dentro das fazendas. E nos impuseram a chamada fazenda plantation, que tem as seguintes características: grandes extensões de terra, monocultura (especializando-se numa só atividade), venda para mercado externo e o principal: a utilização do trabalho escravo! Essa foi a forma predominante da organização da produção e da nossa sociedade. Daí resultaram basicamente três classes sociais: a oligarquia rural, que se dedicava a controlar as fazendas; a nobreza, que atuava em torno das atividades administrativas e burocráticas do Estado e da monarquia; e o povo, formado pelos trabalhadores escravizados e pelo contingente de povos indígenas dispersos, que não aderiram a esse tipo de “sociedade”, pois significava o seu extermínio enquanto povos nativos.
A dependência de nossa agricultura e de nossa economia do exterior era tão grande que as primeiras estatísticas realizadas pelo Banco do Brasil, em meados do século 19, revelaram que chegávamos a exportar mais de 80% de tudo o que se produzia na agricultura em nosso território.

2. O Modelo de industrialização dependente

O modelo agroexportador entrou em crise no final do século 19, por muitas razões. De forma resumida, a crise foi provocada em função das próprias contradições surgidas do modelo. E, assim, a fuga dos escravos deixava as fazendas sem a base de exploração da mão-de-obra. O crescimento da nossa população e sua urbanização gerava novas necessidades e não se podia continuar dependendo de comprar tudo na Europa, como acontecia até então. A gota d’água foi a eclosão de guerras na Europa, que interromperam o comércio internacional de produtos agrícolas. E os preços, então, despencaram.
Essa crise vai se aprofundando, começam a surgir fábricas, aumenta o processo de urbanização e a necessidade de produzir alimentos. E tudo isso eclode numa crise política, chamada de revolução de 1930, quando a nascente burguesia industrial brasileira destrona a oligarquia rural (apelidada de política do café-com-leite) e muda-se então o modelo econômico predominante. Passa-se a implementar o processo de industrialização. Ou seja, o esforço agora da sociedade era para instalar fábricas. Para produzir mercadorias de origem industrial. Esse processo de investimento em novas fábricas se deu com o casamento de três capitais: o capital de origem nacional (da oligarquia exportadora de café etc.), o capital estatal (representado pelo dinheiro que o governo recolhia em impostos), e o capital estrangeiro. E assim começaram a vir para o Brasil as primeiras empresas transnacionais para implantarem suas fábricas, com suas filiais, ou se associando a grupos de capitalistas brasileiros, ou mesmo se associando ao Estado.
Em função dessas características, o modelo recebeu vários nomes, como modelo de desenvolvimento industrial, ou modelo nacional desenvolvimentista; mas vamos usar a definição do querido Florestan Fernandes, que o chamou de “modelo de industrialização dependente”, porque foi um processo rápido de instalação de fábricas, mas dependente do capital estrangeiro.
Com esse modelo, surgiram algumas mudanças econômicas importantes no meio rural. Acabou-se a escravidão, mas os negros não se transformaram em camponeses. Por causa da Lei de Terras, de 1850, os ex-escravos ficaram excluídos do acesso à terra, pois a lei somente permitia ter acesso à terra quem tivesse dinheiro para comprá-la e regularizá- la como propriedade privada, perante a Coroa. Os trabalhadores escravizados, liberados assim da agricultura, migraram para as cidades, em especial para as cidades portuárias, que eram as únicas que tinham trabalho que exigia apenas força física, nenhum conhecimento nem escolarização
– ou seja, carregar e descarregar navios.
Em substituição à mão-de-obra escrava, o governo fez propaganda na Europa e atraiu mais de 1,6 milhões de camponeses pobres, que vieram para trabalhar na terra. Vieram da Itália, Áustria, Alemanha, Espanha e Portugal, no período de 1875 a 1930.
E com eles surge uma nova classe, a dos camponeses, dos pequenos agricultores. No Nordeste do país, formou-se o campesinato com
outra origem: os trabalhadores agrícolas de origem mestiça, que não podiam ser escravizados, mas que não tinham direito à terra. Eles iam se embrenhando pelo sertão adentro, em busca de terras públicas nas quais pudessem cultivar e sobreviver com suas famílias, sem serem molestados pelos fazendeiros da plantation.
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Qual era o papel desse novo setor de economia agrícola
familiar, dos camponeses, durante o modelo de
industrialização dependente?
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Basicamente três:
a) produzir alimentos baratos para alimentar a nascente classe
dos operários, que trabalhavam nas fábricas;
b) produzir matéria-prima para essas fábricas, seja como
energia, seja para o surgimento das primeiras agroindústrias;
c) fornecer mão-de-obra barata para trabalhar nas fábricas.

Para ter acesso completo a essa apostila, acesse: http://www.sindipetrocaxias.org.br/pdf/a_natureza_agronegocio.pdf

Por: Ariovaldo Umbelino de Oliveira e João Pedro Stedile

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Divisão do Trabalho na agropecuária

 Aproveito o espaço para divulgar um belíssimo material que garimpei na web de autoria do colega Juscelino Eudâmidas Bezerra.
 
AGRONEGÓCIO E A NOVA DIVISÃO SOCIAL E
TERRITORIAL DO TRABALHO AGROPECUÁRIO
FORMAL NO NORDESTE
 
 
RESUMO


O objetivo da pesquisa é compreender a divisão territorial do trabalho agropecuário formal
nas áreas de expansão do agronegócio da fruticultura e da soja no Nordeste como signo da
expansão do capital no campo. Para isso utilizamos a metodologia baseada na organização
e execução de uma matriz metodológica a partir da base de dados da Relação Anual de
Informações Sociais (RAIS) e do Cadastro de Empregados e Desempregados (CAGED),
ambas pertencentes ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A adequação ao modelo
preconizado pelo agronegócio no Nordeste brasileiro tem se processado de forma bastante
veemente, graças ao constante processo de reestruturação produtiva da agropecuária.
Nesse modelo, a natureza não representa um fator ofensivo à regulação econômica do
território. Atualmente as áreas de expansão da agropecuária moderna têm se organizado a
partir do desenvolvimento de atividades altamente lucrativas. É o caso da fruticultura que
ocupa os vales úmidos dos rios São Francisco, Açu e Jaguaribe, bem como a expansão da
sojicultura nos cerrados nordestinos, mais precisamente nos Estados do Maranhão, Piauí e
Bahia. A consecução do agronegócio no campo nordestino acelerou o processo de transição da

terra de trabalho para a terra de negócio (MARTINS, 1991) via expropriação dos
trabalhadores rurais e o crescimento do processo de territorialização do capital através da
chegada de empresas agropecuárias, lócus da reprodução de formas de afirmação e
negação do capital. Os rebatimentos para a classe trabalhadora se evidenciaram mediante o
aumento do estoque de empregos formais no setor da agropecuária no Nordeste, sobretudo
nas áreas de produção da fruticultura e da soja. A reestruturação produtiva agropecuária
também acarretou inúmeras mudanças no perfil da classe trabalhadora como o aumento da
participação das mulheres, da demanda por trabalho especializado e o surgimento de novas
categorias sócio-ocupacionais. As áreas de expansão do agronegócio também foram
exemplos da extrema precarização dos trabalhadores onde os mesmos atuam em extensas
jornadas de trabalho, muitas vezes, em condições não compatíveis aos preceitos das
normas trabalhista. Conclui-se que os trabalhadores do agronegócio no Nordeste estão
numa verdadeira encruzilhada, pois destituídos dos meios de produção se submetem quase
que inevitavelmente a venda de sua força de trabalho sendo alvos fáceis para a ocupação
em atividades precárias. Contrariamente ao movimento de expansão do agronegócio
globalizado e na busca por um novo modelo de orientação da sociedade é que os
movimentos sociais nas áreas de expansão do agronegócio apresentaram uma maior
dinâmica, através da ocupação de terras para a viabilização da reforma agrária e da
soberania alimentar.


Palavras – chave

: agronegócio, divisão territorial do trabalho agropecuário formal, Região
Nordeste
 
Em anexo link da dissertação de mestrado.
 

A trajetória dos movimentos sociais no campo: história, teoria social e práticas de governos


 
 
 
Um canavial tem a extensão
Ante a qual todo metro é vão.
João Cabral de Melo Neto
 
1. O Rural: Estrangeiro em seu próprio país
É lugar comum afirmar que o Brasil é país de profundas contradições. No meio acadêmico uma das contradições mais intrigantes é a subestimação dos estudos sobre a realidade social do meio rural. O mercado editorial revela o quanto este tema vem sendo relegado dos anos 80 para cá. Os pesquisadores da área procuram dispor informações que possam reverter este cenário de descaso: revelam que a população rural não se reduziu tal como os institutos de pesquisa quantitativa sugerem; que a cultura rural vai se tornando hegemônica na produção cultural nacional; indicam a pujança dos movimentos sociais. Mesmo assim, o caráter quase exclusivamente urbano das pesquisas sociais nacionais gera uma barreira analítica. O que nos impede de perceberemos as origens da cultura hibrida do brasileiro. Somos “rururbanos” na alma: meio tradicionais e meio modernos, somos transgressores sem romper com a ordem social, somos místicos e declaradamente pragmáticos. Os movimentos sociais brasileiros são nitidamente comunitaristas, marcados por uma sociabilidade tipicamente rural, mesmo aqueles com longa trajetória de lutas urbanas. Não por outro motivo, a organização social com maior poder de mobilização do país é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mas no meio rural encontramos, ainda, as inovações sociais e políticas mais significativas: as lutas pela sustentabilidade econômica, os enfrentamentos de natureza estrutural em relação aos projetos governamentais (como é o caso da transposição do Rio São Francisco), os modelos de gestão participativa mais radicais (como os processos de reassentamento rural nos casos de construção de barragens), os projetos de combate à pobreza (como a construção de cisternas na região do semi-árido).
Estrangeiro em seu próprio país, o mundo rural continua exótico, estranho para grande parte dos brasileiros, incluindo nossos pesquisadores sociais. Daí não compreendermos claramente os movimentos erráticos dos movimentos sociais rurais. Se nos anos 80 alguns estudos sugeriam uma novidade social que vinha do campo, rompendo com os mandonismos locais, no início do Século XXI já era perceptível que a novidade se transmutava, revelava ambigüidades, caminhava sob lógicas pouco coerentes. Citemos como ilustração, algumas dessas ambigüidades:
a) Apesar do movimento sindical de trabalhadores rurais ser o mais vigoroso de toda estrutura sindical nacional, os movimentos sociais rurais, com raras exceções, permanecem organizados ao largo da estrutura sindical;
b) Apesar do movimento social de luta pela terra se constituir no maior foco de resistência política e social do país, grande parte desses movimentos foram se cristalizando em organizações estruturadas e hierarquizadas, alterando paulatinamente seu ideário político e se tornando auto-referentes;
c) Embora a quase totalidade dos movimentos sociais rurais serem oriundos das comunidades eclesiais de base ou similares, ao longo dos anos 90 as divergências de condução entre agentes pastorais e lideranças sociais rurais foram tomando corpo e volume;
d) Não obstante os conselhos municipais de desenvolvimento rural sustentável se consolidarem como uma das experiências de gestão participativa mais intensas e de envolvimento de comunidades do país, não conseguiram romper com a ingerência do Poder Executivo local nas suas deliberações.
A ambigüidade, ou melhor, a ambivalência da cultura política rural parece ser uma marca nítida das ações do homem do campo. Uma característica da cultura rural: uma cultura não hegemônica, desprezada (a despeito de sua pujança) pelo centro político e econômico do país, inferiorizada e que resiste a esta condição, mas que se traduz numa forte hierarquia social no seu interior, formalizada em rituais e tradições definidas pela conduta e costume. A resistência e a tradição andam ao lado da transgressão, ressentimento e revolta. Esta condição leva ao apartamento social e daí as ações de resistência política sempre estarem revestidas de transgressão ou inovação na gestão territorial. Daí a explicação para saques em regiões de seca, ocupações de terra, ocupações de órgãos públicos, co-gestão de projetos sociais.
O novo, no mundo rural, é revolucionário e conservador.
 
2. De Organizações e Movimentos Sociais
 
As organizações sociais rurais contemporâneas, que lideraram lutas de resistência política desde meados do século XX, foram marcadas, desde seu inicio, pela ambigüidade. As duas mais importantes organizações rurais dos anos 50 e 60 (Ligas Camponesas e Sistema CONTAG) sofreram desta sina. As Ligas Camponesas nasceram como Sociedade Agrícola de Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco (SAPPP), mas logo foram cunhadas pelos jornais locais com o nome das organizações rurais comunistas criadas nos anos 50 na região de Ribeirão Preto (SP), para qualificá-las ideologicamente (RICCI, 1999: 67). Logo em seguida, o deputado estadual Francisco Julião criou um comitê de apoio envolvendo PTB, PST, UDN e PSB e se tornaria sua principal liderança. Julião protagonizaria embates acirrados com a direção do PCB sobre a condução das lutas no campo e acabaria por dirigir uma radical inflexão de seu ideário, aproximando as Ligas das políticas castristas, alinhando-as à Cuba.
A CONTAG teve sorte semelhante. Nascida através da disputa e negociações de cúpula entre lideranças do PCB, lideranças conservadoras da igreja católica e Ação Popular, a confederação foi criada em 1963, tendo como presidente Lindolfo Silva (um alfaiate carioca comunista que desconhecia o cotidiano rural). O PCB, na época, dirigia 21 federações rurais (de um total de 42 existentes). Após o golpe militar de 64, a CONTAG será reconquistada por lideranças vinculadas ao PCB apenas no final da década de 60. E, novamente, emerge a ambigüidade cultural, já que a cúpula de esquerda do sistema sindical rural define como estratégia política a orientação pela defesa restrita da lei (lembremos que a legislação vigente era draconiana contra qualquer mobilização social de massa) e estabelecimento de acordos entre lideranças sindicais já estabelecidas (mesmo entre dirigentes muito conservadores), compondo “laços de lealdade” no interior do sistema sindical. Daí a emergência do que poderíamos denominar de “culto aos dirigentes”, como administradores e representantes capacitados para liderar e monopolizar qualquer demanda social rural.
No final dos anos 70 e inicio dos 80, esta limitação do sistema de representação político-social do meio rural foi duramente questionado por uma série de movimentos sociais que explodem nas regiões e categorias sociais de fronteira, pouco ou nada assistidas pela legislação ou estrutura sindical vigentes. Este é o caso da luta pela terra (defendida pelo sistema contaguiano apenas nos limites do Estatuto da Terra, o que excluía a luta de ribeirinhos, seringueiros, sem-terra e bóias-frias), lutas de assalariados rurais temporários e tantos outros segmentos sociais.
Os movimentos sociais rurais dos anos 80 são, portanto, um campo de dupla resistência política, contra a ordem social que os exclui e contra as organizações formais de representação social que não os acolhe. A resistência, assim, é embalada por forte ressentimento, que busca amparo na leitura da Bíblia, em especial, as passagens do Êxodo, que trata da busca de um povo excluído e solitário por uma terra prometida pelo desejo divino. O misticismo retorna como energia moral de segmentos sociais que se sentem abandonados. Daí seu nítido caráter autônomo, frente aos partidos políticos e estruturas formais de representação. Daí o discurso inundado de simbologia, a natureza teleológica (quase proféticas) das palavras de ordem. Daí a preferência por estruturas de organização horizontalizadas, o assembleísmo na tomada de decisões, a forte desconfiança em relação às instituições públicas. Um ideário de distanciamento do instituído e de crença num futuro utópico.
3. De Movimentos Sociais à Organizações
O ideário anti-institucionalista projetado nos anos 80 consolidou uma forte articulação nacional de movimentos sociais e organizações de apoio às lutas sociais rurais. Contudo, não conseguiu elaborar uma nova institucionalidade ou mesmo políticas públicas mais adequadas aos seus interesses. Permaneceram na resistência e na mobilização por pautas mais imediatas. Mesmo algumas inovações implementadas a partir das novidades instituídas pela Constituição de 1988 (mais especificamente os conselhos de gestão pública gerados a partir do artigo 204), não conseguiram esgotar sua possibilidade real de substituir a estrutura verticalizada e burocratizada de gestão pública por estruturas mais horizontalizadas e colegiadas, como é o caso dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS). Com efeito, estudos de Marta Arretche (2000) demonstram que persiste na cultura política nacional a dependência das ações públicas em relação aos órgãos centrais de gestão. Este seria o caso das políticas de descentralização ocorridas no país (merenda escolar, saúde, assistência social, entre outras), que envolveram estados e municípios na medida em que o órgão central gerava estímulos financeiros. Este foi o caso do CMDRS, que em grande parte foram criados a partir do estimulo gerado pelos recursos envolvendo o PRONAF (Programa Nacional de Apoio a Agricultura Familiar). Esta situação parece estar sendo contornada por ações recentes do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que reformularam a política nacional de assistência e extensão rural, aumentando o apoio e as ações de formação técnica dos conselheiros rurais. Entretanto, a regra continuou sendo a dificuldade das ações de resistência e luta por novos direitos superarem os limites das praticas reivindicativas, construindo uma nova institucionalidade pública, uma nova estrutura de poder e tomada de decisão pública.
As dificuldades para a superação do caráter reivindicatório não estiveram vinculadas apenas à cultura ou ideário político dos movimentos sociais, mas à uma conjunção de fatores: o avanço do agronegócio em áreas tradicionalmente ocupadas pela agricultura familiar, o envolvimento direto de assessores e lideranças de movimentos sociais em administrações públicas progressistas, o aumento de disputa por recursos entre movimentos e organizações populares. Assim, muitos movimentos sociais rurais se institucionalizaram e assumiram nítidos sistemas de controle e hierarquia no seu interior, transformando-os em organizações autoreferenciadas. Como organizações, passaram a locomover-se num cenário de autopromoção, deixando de realizar cursos e atividades de formação abertas, para limitá-las à formação de seus próprios quadros, passaram a definir dirigentes autorizados a falar em oficialmente em nome das organizações, criaram sistemas de divulgação de suas ações e captação de recursos financeiros, e assim por diante. A própria filiação da CONTAG à CUT gerou um declínio de todas formas de organização paralela à estrutura sindical federativa que estava em curso até meados dos anos 90. Permaneceram algumas experiências singulares e particularizadas, como as federações de agricultores familiares, mas que não chegaram a alterar, de fato, a estrutura sindical centralizada e pouco enraizada no cotidiano das lutas sociais no campo.
Enfim, em grande parte, as experiências inovadoras desencadeadas pelos movimentos sociais rurais dos anos 80 foram catapultadas à esfera das ações governamentais. Tal constatação não se confunde, é certo, com cooptação das experiências, mas com o que podemos denominar de “estatalização” dos movimentos sociais: um tipo especifico de parceria que tende a institucionalizar os movimentos sociais numa dimensão extremamente formal e oficial. O que merece destaque é a relação direta entre lideranças de movimentos sociais e governos (e nem tanto entre movimentos sociais e Estado), consolidando uma relação política e não necessariamente uma nova institucionalidade pública. Nesses termos, o PRONAF parece ser a referência mais direta e exitosa desta nova relação política, o que se distancia do caráter emancipatório dessas políticas e ações governamentais.
Com efeito, estudo recente a respeito do PRONAF (SCHNEIDER, 2004) revela a pujança e caráter inovador deste programa. O PRONAF adotou quatro objetivos centrais: a) adequar políticas setoriais à realidade da agricultura familiar; b) viabilizar infraestrutura para este segmento social; c) elevar o profissionalismo dos agricultores familiares e; d) estimular o acesso aos mercados de insumos e produtos, operacionalizados a partir do financiamento da produção, financiamento da infraestrutura, formação de profissionais e financiamento da pesquisa e extensão rural (SCNEIDER, CAZELLA & MATTEI, 2004:24). Uma importante investigação sobre o funcionamento de CMDRS do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraíba (MARQUES, 2004: 54) indica algumas características desses organismos de gestão pública:
a) A paridade na sua composição, entre representantes das comunidades rurais e agentes governamentais, parece provocar disparidades na capacidade de tomada de decisões dos CMDRS. Enquanto os primeiros participam como voluntários, os segundos possuem condições materiais (incluindo salário) que lhes confere mobilidade;
b) Não é freqüente, como seria adequado, que o presidente dos CMDRS sejam eleitos por seus pares;
c) Não existe uma concepção nítida do que seria a estrutura mais adequada de participação das comunidades rurais nos CMDRS. Em alguns casos, técnicos da EMATER (extensão rural) entrevistados consideram que um número elevado de conselheiros e representantes de cada comunidade dificulta a agilidade das decisões;
d) A composição dos CMDRS não é uniforme ao longo do país. Contudo, a presença dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STR) e de associações de agricultores familiares (ou suas comunidades), é uma constante. Em alguns casos, representações do empresariado são incorporadas aos conselhos (caso mais freqüente no Rio Grande do Sul), assim como igrejas (caso mais freqüente na Paraíba). Há registros de embates sociais para ingresso nos conselhos, como vários casos envolvendo assentados rurais;
e) Os CMDRS valorizam o saber prático, o que questiona, muitas vezes, o saber técnico da representação governamental (em especial, dos técnicos presentes). Os embates de ordem cultural são constantes. Não é raro extensionistas rurais selecionarem conteúdos e formulações dos conselhos do que consideram ilusório ou irrealista (MARQUES, 2004: 69). O despreparo de agentes das Secretarias Municipais de Agricultura ou descaso de prefeitos limitam, muitas vezes, a capacidade política dos conselhos (contudo, no Rio Grande do Sul, 57% dos presidentes dos CMDRS são secretários da agricultura; na Paraíba, há registros de ingerência direta do Poder Público local na definição de representantes das comunidades rurais como conselheiros).
Uma outra esfera de atuação governamental – as políticas agrárias – não mereceu a mesma atenção e lógica adotada pelo PRONAF. Ao contrário, desde os anos 80, a reforma agrária foi deslizando da agenda oficial dos partidos e das preocupações centrais da agenda estatal. Associou-se à histórica oposição do empresariado nacional a reelaboração teórica promovida inicialmente por José Graziano da Silva (1985). De política estatal de natureza distributiva que teria como função corrigir distorções na ocupação da terra e natureza da estrutura produtiva rural, a reforma agrária passou a ser considerada como política compensatória ou ação focalizada para debelar tensões em áreas de conflito social. Ao longo dos anos 90, o novo contorno da política agrícola foi se acentuando e descaracterizando os objetivos tradicionais da reforma agrária. No governo Lula, a reforma agrária passou a ser substituída pelo fomento ao desenvolvimento territorial. É fato que esta substituição é tema de embate político no interior do governo, mas os agentes estatais que sustentam a tradicional versão da política de reforma agrária são francamente minoria no interior da gestão federal.
Uma última observação sobre as políticas estatais para o meio rural e a relação com movimentos e organizações rurais diz respeito à focalização de diversas iniciativas como é o caso da transposição do Rio São Francisco. Tanto a territorialização, quanto as demais ações governamentais voltadas para o fomento à agricultura (em especial, a agricultura familiar), com exceção do PRONAF – já comentado – possuem contornos das políticas focalizadas, não universais. Esta parece ser uma lógica que mantém, de um lado, a redução das políticas públicas para o setor à sua dimensão econômica; de outro lado, é possível, ainda, sugerir referências à noção de formação de clusters. As duas hipóteses indicam, se corretas, o caráter facilitador de realização do capital e dos investimentos no setor.
É fato, contudo, que a focalização não se tornou, até o momento, uma leitura governamental unificada, embora hegemônica, dirigida pelos formuladores do Ministério da Fazenda.
Os movimentos sociais rurais, e mais especificamente, as organizações rurais de trabalhadores e agricultura familiar, têm neste enredo um dilema a ser superado: ou disputam programas marginais que indicam mudança na lógica de fomento ao desenvolvimento da agricultura ou aumentam o grau de mobilização social e pressão sobre as agências estatais. A primeira opção foi, até o momento, a escolha, ainda que tímida, que grande parte dessas organizações trilharam. Tal escolha, contudo, parece se esgotar gradativamente
 

4. Da crise de paradigmas e de representações sociais

A historia recente dos movimentos sociais rurais, como se percebe, é tortuosa e errática. Pareciam anunciar novas práticas políticas e sociais nos anos 80, mas rapidamente tomaram novos rumos, se institucionalizaram, alguns se partidarizaram, outros mantiveram o ideário original (mas restrito à pequenos territórios de atuação) ou até mesmo mantiveram ações inovadoras temáticas (como no caso de reassentamentos rurais de populacões atingidas pela construção de hidrelétricas). Mas não conseguiram produzir – nem prática, nem teoricamente – um esboço de nova institucionalidade pública ou padrão de formulação ou controle social sobre políticas públicas do setor, como era anunciado em diversos estudos elaborados ao longo dos anos 80 e 90.

Além do hibridismo (ou ambivalência) da cultura política rural, outros fatores competem para a contenção ou inflexão dos movimentos sociais rurais brasileiros. A mais instigante hipótese é a de crise das estruturas de representação política no meio rural em virtude de mudanças aceleradas das condições sociais e de trabalho no campo. A fragmentação social, a mudança constante da paisagem rural, a crise das relações sociais tradicionais, contribuem para uma constante tensão entre uma identidade tradicional das populações rurais e um panorama inovador e volátil que conspira contra as bases de seu imaginário. Num terreno social, ideológico e econômico como este, as possibilidades e impactos sofridos pelas populações rurais gera o que podemos denominar de “tendência à dissocialização”, para utilizarmos termo sugerido recentemente por Touraine (1999).

É importante ressaltar que toda representação social é mutável, se inscrevem nos quadros de pensamento preexistentes e enveredam por uma moral social (JODELET, 2001: 20), não raro acolhendo várias representações de natureza distinta que acabam por criar novos elementos morais, dando lugar a teorias espontâneas. Em suma, as representações incorporam diversos elementos da vida cotidiana (informativos, cognitivos, ideológicos, normativos, crenças, valores, atitudes, opiniões, imagens), num mosaico de informações que constituem um tipo de bricolage, o que confere o deslocamento de certezas e verdades sociais, alterando o sentimento de pertença social e o julgamento das experiências cotidianas. As representações sociais, enfim, articulam conteúdos e processos. No caso em estudo, as comunidades rurais vivenciam um momento de “deslocamento de representações” em virtude da flexibilidade da ordem social contemporânea. Nada mais natural, portanto, que sugerirmos um importante momento de crise de representação social.

A cultura comunitária, enfim, não consegue impor-se como alternativa à constante ruptura social e de expectativas futuras. Enquanto tendência, contudo, pode gerar inovações. Mas, para tanto, as populações rurais terão que atualizar a trincheira aberta nos anos 80, de formação de uma forte identidade e valorização das populações rurais, de compreensão do seu isolamento frente às opções governamentais e de construção efetiva de uma nova institucionalidade pública, que considere seu ideário e imaginário social e suas formas de reprodução social. A capacidade de formulação de políticas públicas e controle social rural era, e se mantém, como possibilidade afirmativa do mundo rural tal como elaborado pelos movimentos sociais rurais dos anos 80. Para além do Estado ou para transformá-lo radicalmente.
Por:  RUDÁ RICCI
 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Caminhos pré-colombianos

O povoamento do continente americano foi multiétnico e descontínuo. Há divergência a respeito das rotas migratórias percorridas por diversos grupos étnicos que habitaram estas terras desde o fim da Era Glacial


Há pelo menos 12 mil anos, os primeiros hominídeos chegaram às Américas, caminhando lentamente, em pequenos grupos e por diferentes caminhos. Estas migrações foram multiétnicas e descontínuas. Hoje, já se sabe que os habitantes pré-colombianos deste continente percorreram ao menos quatro levas migratórias: três passando pelo Estreito de Bering (em épocas distintas) com chegada ao Alasca – e, em uma delas – posterior migração para Patagônia e sul do Chile. E pelo menos uma (ainda mais antiga) que teria vindo pelo Oceano Atlântico da Europa, cujo destino foi o sudeste dos Estados Unidos. Mas a trajetória até a aceitação científica das múltiplas origens dos nossos ancestrais foi longa e tortuosa.  
Movimentos migratórios antigos na América
Durante as primeiras décadas do século XX, por exemplo, estudiosos norte-americanos apostaram suas fichas na existência de apenas um modelo preponderante de migração para este continente, que consistia na vinda de grupos de caçadores de animais de grande porte da Sibéria em direção ao Alasca.  Os ancestrais dos atuais esquimós teriam chegado ao continente em três levas – entre 12 e 6 mil anos atrás, durante o último período glacial. A teoria chamada “Clovis First”, no entanto, deixava algumas brechas na pré-História. Dúvidas que só começaram a ser respondidas em 1975, com a análise do fóssil brasileiro Luzia, pelo bioarqueólogo da Universidade de São Paulo, Walter Neves.
O crânio da “paleoíndia” veio à tona pela antropóloga física Marília Alvim, após escavações nos sítio da Lapa Vermelha, em Minas Gerais. E logo se tornou ferramenta fundamental neste processo de mudança de paradigmas acerca das rotas migratórias, já que Luzia possui traço negroide, bem diferente do mongoloide - predominante nos ancestrais da América do Norte -, conforme indicou a pesquisa de Walter Neves. Sua teoria se tornou ainda mais clara após ter sido feita sua reconstituição facial.
Antes destes estudos se concluírem, no entanto, a arqueóloga francesa Annete Laming-Emperaire, responsável pela Missão Francesa no Brasil, já havia confirmado presença humana na mesma região mineira com datações variando entre 11 e 7 mil anos de idade.  E, cem anos antes, o naturalista dinamarquês Peter Lund já havia feito as primeiras descobertas da arqueologia brasileira na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, sem saber que contribuiria para alimentar a posterior reviravolta nas diásporas migratórias americanas. Na época de Lund, ou seja, final do século XIX, foram encontrados dezenas de sítios arqueológicos em cavernas da região e centenas de esqueletos, muitos dos quais conduzidos à Europa, especialmente à Dinamarca para serem estudados por especialistas.
Nos últimos anos, outros registros arqueológicos com características semelhantes foram identificados também em Santana do Riacho, Minas Gerais e Caatinga de Moura, Bahia, no Brasil, além de achados nos Estados Unidos, no México, no Chile, na Colômbia e na Argentina.  Walter Neves coletou todas estas informações e publicou o resultado de sua pesquisa, indicando a possibilidade da existências de migrações americanas entre 20 e 25 mil anos atrás.
Outros casos
Na região de Monte Verde, no sul do Chile, escavações e estudos arqueológicos também realizados na década de 1970 indicaram que grupos caçadores-coletores haviam passado por ali há pelo menos 12.500 anos. A informação inviabilizava a teoria clássica migratória via Estreito de Bering para esta região, através do interior do continente americano. Ou seja, os “paleoíndios” daquela região do Chile teriam vindo também do norte do continente, mas via costa do Pacífico sem ultrapassar os limites da cordilheira. Surge, então, mais uma possibilidade migratória: o deslocamento via costa do Pacífico, que explicaria perfeitamente a rápida chegada à América do Sul, especificamente em Monte Verde, justificando ainda outras datações antigas encontradas na Patagônia e sul do Brasil.
Outras descobertas, como de sítios arqueológicos no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, também figuram o quadro de achados antigos do Brasil. Os vestígios de paleoíndios na região datam algo em torno de 50 mil anos atrás. Tais resultados levaram os pesquisadores envolvidos a sugerirem a chegada do homem ao local por meio de migrações via oceano Atlântico, cujos grupos, provenientes da África, teriam vindo em pequenas embarcações, em meio às inúmeras ilhas que afloravam na travessia, em função da oscilação do nível do mar. Esta hipótese migratória ainda encontra resistência no meio científico internacional.
Mas o caminho via oceano Atlântico para outras regiões da América chega a ser cogitado em outros casos, como o dos “paleoíndios” que se assentaram no sudeste dos Estados Unidos, provavelmente entre 25 e 17 mil anos atrás. Desde 1998, os pesquisadores Dennis Stanford e Bruce Bradley, da universidade britânica do Exeter, vem defendendo a vinda de grupos da Europa para a costa leste norte-americana, à bordo de pequenas embarcações. Foram encontrados sítios arqueológicos nos estados de Maryland, Pennsylvania, Virgínia, Florida e Delaware que apresentam vestígios de cultura material semelhante aos encontrados em escavações no Velho Continente.
Sambaquis e tupiguaranis
As migrações sempre foram necessárias entre os grupos de caçadores-coletores.  No Brasil, não poderia ser diferente, os deslocamentos persistiram ao longo do tempo, ganhando força por volta de 6 mil até o início da era cristã, quando grupos interioranos seguiram em direção ao litoral, em razão do aumento da temperatura e da maior disponibilidade de alimentos na costa, dando origem aos conhecidos sambaquis. Pouco se sabe dos percursos escolhidos para estas migrações. Há indícios de contatos com outras populações, especialmente no sul do Brasil, dada a monumentalidade e diversidade dos artefatos encontrados nessa faixa litorânea. As datações mais antigas estão no Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Paraná, entre 7.500 e 6.000 anos.
Coincidentemente, no mesmo período em que os sambaquieiros entravam em colapso, tinha início mais um novo ciclo de migrações, desta vez de grupos horticultores, vindos da Amazônia, detentores de uma organização social mais consistente e uma produção material tecnologicamente mais complexa. Englobados na tradição tupiguarani no último quartel do século XX, não representam uma unidade étnica, social e cultural, tendo sido recentemente denominados na arqueologia brasileira por “grupos portadores de cerâmica tupi-guarani”.
Há pelo menos três grandes propostas para a migração dos grupos tupi-guarani. Uma delas indica a existência de movimentos migratórios advindos da Amazônia Central – ou via rio Amazonas em direção à foz - e de lá teria seguido pelo litoral até São Paulo, compondo o ramo Tupinambá. A segunda indica a origem aos Guarani pelos afluentes dos rios Madeira e Guaporé, se disseminando pela bacia dos rios Paraná e Paraguai no sul do Brasil. A terceira e mais distinta, tem como ponto de dispersão a mesma região amazônica: os grupos Tupi, migrando unicamente pelo Brasil central, atingido o litoral na região sudeste, possivelmente através do Vale do Paranapanema. Neste ponto, uma parte teria seguido o rumo norte e outra, sul, dando origem aos Tupinambá e Guarani.
Se os pontos de partida e chegada dos grupos caçadores-coletores, sambaquieiros e horticultores já estão claramente identificados, seus verdadeiros itinerários ainda são obscuros. Os rastros dos caminhos milenares percorridos por estes povos foram sendo apagados pelo tempo e a pesquisa arqueológica tenta refazê-los pouco a pouco, dia após dia.
Walter Neves em foto do acervo do Laboratório de Estudos evolutivos Humanos (IB/USP)
Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional