terça-feira, 5 de junho de 2012

INVESTIGAÇÃO


Arquivos das Forças Armadas serão abertos, diz ministro da Defesa


Comissão da Verdade é o "último capítulo da história da abertura democrática do Brasil"


O ministro da Defesa, Celso Amorim, sinalizou nesta segunda-feira (04) que vai atuar para abrir os centros de informação das Forças Armadas para a Comissão Nacional da Verdade, que investiga crimes cometidos por agentes do Estado de 1946 a 1988. "A lei diz que nós temos todo o dever de cooperar", afirmou. "Em termos gerais, tudo estará aberto."
Ele deu essas declarações em uma entrevista coletiva após encontro com integrantes da Comissão da Verdade. Os centros de informação da Aeronáutica (Cisa), do Exército (CIEx) e da Marinha (Cenimar) guardam as memórias da repressão política, especialmente do período do regime militar (1964-1985) - popularmente chamados "arquivos secretos da ditadura". Foram dos centros que saíram, em 1993, três listas com algumas informações sobre guerrilheiros do PCdoB mortos no Araguaia, no começo dos anos 1970.
Desde 1985, início do governo civil de José Sarney, as Forças Armadas mantêm o discurso de que não existem arquivos oficiais. Os militares, no entanto, nunca permitiram a entrada de representantes de áreas civis do governo ou da Justiça aos centros de informação. O CIEx, antigo CIE, em especial, organizou nos governos Médici (1969-1974) e Geisel (1974-1979), a política de extermínio de adversários da ditadura. Grupos de direitos humanos esperam a abertura dos centros para esclarecer como morreram militantes políticos.
A princípio, Celso Amorim se esquivou ao ser questionado sobre a abertura dos centros de informação. Ao ser questionado sobre a possibilidade de abrir os centros, ele chegou a dizer que não se falou "sobre isso" no encontro da comissão. Em seguida, admitiu "que tudo foi falado", sem especificar a questão dos centros. Aos poucos, no entanto, o ministro deus sinais de que o "coração" da memória oficial da repressão poderia ser aberto. Ele, no entanto, não informou quando isso poderá ocorrer e sobre quais condições.
Na entrevista, Amorim disse que a Comissão da Verdade é o "último capítulo da história da abertura democrática do Brasil". "Vamos facultar todas as informações pedidas que possam ajudar à Comissão da Verdade", afirmou. "Reiteramos a disposição do Ministério da Defesa de cooperar e colaborar com os integrantes da comissão."

Elizabeth II encerra sem o marido as celebrações de seu Jubileu


Último dia de festejos terá início com uma cerimônia religiosa na Catedral de São Paulo, no centro de Londres


LONDRES - A rainha Elizabeth II encerrará nesta terça-feira as bem-sucedidas celebrações de seu Jubileu de Diamante sem seu marido, o príncipe Philip, de 90 anos, que continua hospitalizado por conta de uma infecção na bexiga. O duque de Edimburgo, que assistiu ao desfile de 1 mil embarcações pelo rio Tâmisa no domingo em meio à chuva e ao frio, teve de ser internado repentinamente após sentir-se mal nesta segunda-feira.
O último dia de festejos terá início com uma cerimônia religiosa na Catedral de São Paulo, em pleno centro de Londres, depois do que a família real irá de carruagem até o Palácio de Buckingham. Se o tempo permitir, haverá ainda um desfile aéreo a cargo das Forças Aéreas britânicas. Londres amanheceu com tempo bom, mas os serviços meteorológicos advertem que haverá chuva às 11h30 de Brasília, quando a soberana deverá cumprimentar seus súditos desde a sacada do palácio.
Às 14h, as emissoras de televisão e rádio britânicas e dos países que formam a Comunidade das Nações transmitirão uma mensagem de agradecimento gravada pela Rainha. Essa última jornada de celebrações será mais formal que os dias anteriores, nos quais predominou o caráter festivo e lúdico.
A cerimônia religiosa na Catedral de São Paulo será dirigida por seu deão, David Ison, enquanto a leitura do sermão correrá a cargo do arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, diante da família real britânica e de outras personalidades. O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, irá liderar a representação governamental junto a diplomatas e outros líderes políticos estrangeiros. Depois disso, Elizabeth II participará de uma recepção em Mansion House, enquanto o príncipe Charles e sua esposa, Camilla Parker Bowles, assistirão a um ato similar em Guildhall.
Após participar de um almoço de membros da casa real em Westminster Hall - sede do Parlamento britânico - com cerca de 700 convidados, Elizabeth II fará um percurso de carruagem pelo centro de Londres. Depois do fim da procissão de carruagens, que terá seu fim no Palácio de Buckingham, os membros da casa real britânica subirão à sacada para cumprimentar os milhares de cidadãos que deverão estar concentrados para acompanhar o ato final do Jubileu.

Espaço Ciência: atividades variadas


Semana do Meio Ambiente oferece programação especial até quarta-feira


Em celebração à Semana do Meio Ambiente, o Espaço Ciência, localizado no Complexo de Salgadinho, em Olinda, em parceria com mais 15 instituições, dentre elas o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o Projeto Peixe Boi, e a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), criou uma programação especial para os alunos do Ensino Fundamental I e II, e do Ensino Médio, de todas as escolas da Região Metropolitana do Recife (RMR), além do público em geral. Até a próxima quarta-feira (06), o local oferece, gratuitamente, várias atividades como oficinas, exposições e laboratório aos visitantes.
A iniciativa teve abertura no último domingo (03), no parque Dona Lindu, bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, e contou com diversas atividades. Dentre elas o Teatro de Fantoches, a Exposição de Tartarugas, e o Gaiolão, onde o público foi convidado a entrar numa gaiola gigante e sentir como é estar preso como os pássaros. Algumas atividades foram levadas ao Espaço Ciência e outras foram acrescentadas, como oficina de reciclagem de óleo, exposição e vídeo sobre Baobás, Caça à Reciclagem, onde o visitante soma pontos ao coletar e dispor corretamente o lixo, a exposição “Energias para o futuro”, trilha ecológica, barco solar, e a casa laboratório, onde são apresentados diversos tipos de energia alternativa.
LARISSA aprendeu sobre o plantio nos telhados das casas e sobre energia solar 

Além disso, hoje, às 14h, haverá uma mesa-redonda discutindo o tema “Economia Verde. Você se Inclui?”, no auditório do Espaço Ciência, com a participação de Benedito Parente e Graça Araújo, representantes da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas); Marcus Prado, representante da Ecofliporto; e de Kátia Maia, representante do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). Alguns assuntos como a seca no Interior e o meio ambiente sustentável, serão debatidos.
Para a estudante Larissa Williamo, 9, da 4ª série do Ensino Fundamental I, as atividades estão ensinando os alunos a como preservar o meio ambiente. “Podemos ter um teto vegetativo, que é plantar nos telhados da casa, ajudando o meio ambiente. Aprendi mais sobre energia solar, e também sobre a babosa, que pode fazer um óleo para colocar no cabelo, deixando ele mais bonito”, contou.
Segundo a coordenadora da Semana do Meio Ambiente do Espaço Ciência, Laurinete Prazeres, é importante que os alunos tenham a conscientização de preservação, para um futuro saudável. “Estamos recebendo uma demanda de cerca de 600 alunos por hora, e isso é muito bom. Tentamos passar para as crianças nossos conhecimentos científicos para que elas tenham uma conscientização de preservação do meio ambiente. Elas são o futuro do planeta”, pontuou.
As escolas que tiverem interesse em participar das atividades devem fazer um agendamento pelo site do Espaço Ciência ou pelo telefone do estabelecimento. Já para o público em geral, o agendamento só é necessário caso o grupo seja maior que dez pessoas. As atividades estão funcionando das 8h ao meio-dia e das 13h às 17h. A entrada é gratuita.
SERVIÇO:
Espaço Ciência
Telefones: 3241.3226 / 3301.6140  /3183.5528

Inquisição à Brasileira


Fogo que arde sem se ver

As heranças da Inquisição, presentes até hoje no Brasil, podem ser reavivadas com a reforma do Código de Processo Penal

A Inquisição em Portugal e nas colônias pode ter acabado oficialmente em 1821, mas, pelo menos no Brasil, suas chamas continuam acesas, ainda que discretamente. Em breve, a Câmara dos Deputados terá a chance de reavivá-las. Nada de perseguições, torturas ou bruxaria: o único instrumento necessário é um projeto de reforma do Código de Processo Penal, já aprovado pelo Senado. Como em uma viagem no tempo, o projeto propõe a criação de um modelo de juiz que surgiu nos primórdios da Inquisição espanhola e nunca mais foi utilizado. Diferentemente do sistema atual, esse juiz passa a poder apresentar provas a favor do réu.
O chamado “juiz-defensor” era importante para neutralizar um depoimento de acusação que tivesse o objetivo de prejudicar o réu. Ele surgiu nas Instruções do primeiro inquisidor-geral espanhol, Tomás de Torquemada, em 1484. Mas, e hoje? Qual seria o benefício desse tipo de juiz para a Justiça brasileira? “Não sei qual o lado bom, pois esse juiz é tendencioso, já nasce tendo que proteger o réu. Mas se você for acusado, vai preferir um juiz que fique do seu lado ou um juiz isento? Daí dá para se ter uma ideia de quem propôs isso”, ironiza Mauro Fonseca Andrade, promotor de Justiça do Rio Grande do Sul e autor de Inquisição espanhola e seu processo criminal – As Instruções de Torquemada e Valdés (2006).
O projeto ainda não tem data para ser analisado na Câmara, mas já vem sendo criticado por vários juristas e organizações. “O sistema judiciário brasileiro não tem juízes suficientes; essa ideia está fora da realidade. Além disso, o juiz tem que ser imparcial; essa mudança vai contra os princípios da democracia brasileira”, protesta Gabriel Wedy, presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros.
Talvez a criação da figura do juiz-defensor nunca seja aprovada. De qualquer modo, ela seria só mais lenha na fogueira, pois no Brasil não faltam heranças da Inquisição – e a Justiça concentra boa parte delas. Dois exemplos positivos são a concessão de defensor público a quem não tem dinheiro para pagar um advogado e a figura do Ministério Público, criada na esfera inquisitorial, mas ainda no fim da Idade Média. Naquela época, a Igreja e a Coroa tinham uma espécie de funcionário chamado “fiscal”, encarregado de apresentar acusações à Inquisição. “Isso acontecia justamente porque os particulares não tinham intenção ou então tinham medo de acusar quem cometia algum crime ou praticava heresia”, explica o promotor Andrade. Ainda hoje, na Espanha, o nome do órgão equivalente ao nosso Ministério Público é Ministerio Fiscal.
O segredo de processo é outra herança desse período. Na Idade Média, ele era uma forma de os inquisidores manterem maior controle sobre as ações. Antes disso, os julgamentos eram públicos e chegavam a ter a presença de até seis mil pessoas. Essa participação permitia uma espécie de fiscalização popular. Mesmo com o fim dessa plateia, os acusados não ficaram totalmente desamparados: surgiu na mesma época o recurso em benefício do réu. Em alguns países, passou a ser possível recorrer das decisões impostas pelo tribunal. A francesa Joana D’Arc (1412-1431), por exemplo, só pôde apelar ao papa por causa deste recurso. Ele não foi tão eficaz quanto o esperado, mas retardou sua morte.
Esses e outros resquícios da Inquisição se fixaram no processo penal de forma que nem o discurso liberal no Império nem a influência americana na Constituição republicana de 1891 conseguiram eliminá-los. “Isso se intensificou com o Código de Processo Penal de 1941, elaborado no clima do Estado Novo e vigente até hoje. O código se baseia na hipertrofia do poder e na presunção de culpa do acusado. Ele se choca com a Constituição de 1988, cujos pressupostos se encaminham para um modelo acusatório que privilegia três entes separados: a promotoria, a defesa e o juiz, em lugar da concentração, típica do modelo inquisitorial”, afirma Arno Wehling, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e autor deDireito e Justiça no Brasil Colonial – o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro (1751-1808) (2004), com Maria José Wehling.
Por mais óbvias que sejam para especialistas em história jurídica, essas heranças inquisitoriais dificilmente são percebidas pela população. Uma das maneiras mais simples de notarmos os resquícios do Santo Ofício nos dias de hoje talvez seja por meio de expressões populares, como “a carapuça serviu”. Há quem garanta que a origem está no ritual que obrigava os réus da Inquisição a colocar um gorro cônico na cabeça, assumindo a culpa. E quem nunca “ficou a ver navios”? Esta expressão teria surgido em Portugal, quando os judeus se preparavam para deixar o reino na data marcada por D. Manuel, ainda no século XV. Tudo não passava de uma farsa montada pelo rei, que não queria que eles partissem. Resultado: todos foram convertidos à força ao catolicismo, e os navios que os levariam embora nunca apareceram.
Um exemplo que mostra bem o clima de perseguição da época é o ditado “mesa de mineiro tem gaveta para esconder a comida quando chega visita”. Facilmente relacionado à sovinice, pode ter uma origem bem diferente, já que os cristãos-novos eram obrigados a esconder comidas tipicamente judaicas para não serem identificados por possíveis delatores. “Quando chegava uma visita, que muitas vezes era um cristão-velho, dizem que eles escondiam a comida kasher nas gavetas e tiravam, por exemplo, carne de porco, que é proibida aos judeus. Isto é o que se conta, mas não se tem como comprovar”, diz Tânia Kaufman, presidente do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco.
Outro exemplo, mais conhecido, já deixou amedrontadas crianças de todas as religiões. Muita gente costuma dizer que quando se aponta para as estrelas, nascem verrugas nos dedos. Claramente, isso não passa de uma lenda, provavelmente criada por causa da tradicional cerimônia do shabat, que começa na sexta-feira à tarde, quando a primeira estrela aparece no céu. A história era uma maneira de evitar que as crianças de origem judaica – habituadas a venerar o astro que dava início ao ritual – apontassem para a estrela e se denunciassem à Inquisição.
A lista de mitos e expressões conhecidos até hoje é longa, e inclui itens também pejorativos, como a palavra “judiar”. Usada na maioria das vezes por pessoas que nem fazem ideia de sua origem, ela aparece no Dicionário Houaiss como “ato de judiar, de fazer alguém alvo de escárnio ou de maus-tratos; judiaria”. Exatamente o que acontecia com os cristãos-novos de origem judaica, os mais perseguidos pela Inquisição portuguesa.
Outras palavras, embora já existissem antes, também adquiriram, durante a Inquisição, um significado relacionado à perseguição aos cristãos-novos.Em dicionários da época, a palavra “infecto”, por exemplo, era sinônimo de quem tinha sangue judeu ou mouro, entre outros grupos nada bem-vindos. “É difícil estudar o racismo de hoje sem entender que é uma questão de mentalidade a longo prazo. Por mais que sejam manifestações distintas, a origem de tudo está ali, nesse pensamento racista de fundamentação teológica”, explica Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) da USP. 
Apesar de ainda restarem hoje expressões negativas, piadas sobre judeus e algumas manifestações de racismo isoladas, não se pode dizer que o povo brasileiro é antissemita. “Há algumas pessoas que têm antipatia pelos judeus, mas não sabem o porquê. Até a Igreja, que manteve a antipatia por um tempo, já pediu perdão pela Inquisição”, lembra Anita Novinsky, presidente e fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP. Segundo ela, apesar de ter sido uma “instituição de horror”, a ação inquisitorial teve outros desdobramentos: “Ela fez com que vários cérebros ilustres fugissem para o Brasil. Sem contar os primeiros plantadores de açúcar, os primeiros mineradores. Esse foi seu maior legado”.
Entre tantas heranças, a lista parece infinita. E atinge praticamente todos os campos da cultura popular, incluindo a rejeição de muitos nordestinos à carne de porco – denunciando aí um judaísmo clandestino – e até a tradicional festa de São João. Pois é, quem pula as fogueiras juninas nem imagina que elas estão associadas às chamas da Inquisição. Mas ambas foram tentativas da Igreja de desfazer a imagem negativa das fogueiras acesas nas festas pagãs [Ver RHBN nº45].Consideradas desde então “fogos eclesiásticos”, as fogueiras da Inquisição nunca chegaram a arder aqui no Brasil. No entanto, sua versão mais inocente continua a fazer muito sucesso no país e está, junto com as demais heranças na cultura e na Justiça, mantendo as chamas da Inquisição acesas, discretamente, por mais de 200 anos.

Fonte: www.revistadehistoria.com.br
Por: Cristina Romanelli

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Um universo e tanto


A vida do escultor e pintor Francisco Brennand será retratada na literatura e no cinema


     Aos 85 anos, o pernambucano Francisco Brennand, conhecido por suas esculturas em cerâmica, ganha um livro e um documentário sobre sua vida. Seu diário, escrito entre 1949 e 1999, inspirou as duas obras e deve ser lançado em breve com o título O nome do livro: serão três volumes que somam quase 2.000 páginas.
    “A obra dele é muito original, nos mostra um artista de talento e visão própria da expressão estética.”, diz Ferreira Gullar, que assina o prefácio do livro O universo de Francisco Brennand, editado por G. Ermakoff. Situando Brennand como um artista moderno, Gullar acrescenta que o pernambucano dialoga com a arte clássica ao subverter a busca do belo e do sagrado mostrando o “feio como a outra face do mistério”, numa forma de afirmar a “danação da beleza”.
     O documentário, idealizado e dirigido por Mariana Brennand, conta a história do artista por meio de fotos de cerâmicas, reproduções de telas, desenhos e imagens da oficina onde ele trabalha, em Recife. A diretora diz que, para fazer o documentário, precisou construir uma relação de confiança com o tio-avô, que vive recluso no ateliê, criando. “Em 2002, tomei conhecimento da existência do diário, mas nunca tinha visto nada. Aos poucos consegui que ele me mostrasse suas memórias, e decidi que a história do filme seria contada por meio desse diário.” Ela adianta que um quarto volume está por vir e será intitulado O nome do outro.



"Sou um escultor com coração de pintor"


Uma escolha de fé?




Em Habemus Papam, papa foge na hora de assumir o cargo com medo de não ser apto para liderar a Igreja. Filme faz uma leve caricatura dos bastidores do conclave e problematiza a situação da Itália hoje




“Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel?” A pergunta está na Bíblia e pertence a Moisés, em resposta ao pedido de Deus para que O ajudasse na libertação dos judeus sob a escravidão egípcia. Não é, portanto, tão surreal que o papa do Vaticano criado pelo diretor Nanni Moretti no filme “Habemus Papam” tenha dúvidas quanto às suas capacidades para dar prosseguimento à missão de Pedro, promovendo as transformações que a Igreja precisa e liderando os milhões de católicos que o enxergam como o mais legítimo representante do Senhor na terra.
Semelhantes em idade avançada, Moisés e o cardeal Melville, brilhantemente interpretado pelo simpático francês Michel Piccoli, reivindicam o tradicional ideal cristão do livre-arbítrio. A crise: separação, discernimento, julgamento. Os sentimentos confusos levam o novo papa, no filme, ao isolamento e mesmo à fuga. É a representação mais clara de um conflito que escapa ao consciente: a doutrina de fé católica não pode compreender que o Espírito Santo tenha escolhido o fiel errado.
Coerente com tal raciocínio impensável para os católicos, e surpreendente para os ateus, a telona reproduz como poucas vezes os rituais internos do conclave - nome dado ao período de votação para eleição de um novo papa. O espectador acompanha então uma rotina humana demais para ser encarada como manifestação divina: blecaute, caneta sem tinta, ausência de velas, padres que caem da cadeira, orações desesperadas para que a Graça do papado não lhe seja entregue e, por fim, a contagem da votação, em que a ingênua vaidade e o orgulho também estão presentes.


Na sequência, quando a religião declina à tarefa de compreender o mundo e não sabe como interpretar as emoções humanas e os conflitos morais que se apresentam, ela humildemente pede ajuda à ciência. O desencanto causado pela consideração razoável de uma intervenção não religiosa parece pequeno diante de um possível buraco que a ausência do papa causaria na identidade nacional italiana fortemente enraizada em tradições católicas. O próprio diretor encarna um psicanalista enviado pelas autoridades religiosas para ajudar o pontífice a entender seu dilema e, ao longo de cenas cômico-dramáticas, acaba por dissolver supostas fronteiras entre as ideologias laicas e as religiosas.
Sem garantir privilégios a uma ou outra, são expostas afinidades culturais como a valorização da instituição familiar nas explicações dos conflitos internos e nos ideais de “bem comum” ou “bem estar”, no papel preponderante para a liberdade individual e, sobretudo, a recusa atual a uma religião/cultura de simbolização rigorosamente fechada em sintonia com estereótipos de fiéis e de homens. Lado a lado, as representações religiosas e terapêuticas da humanidade e de suas perturbações compõem uma Igreja clara e profundamente responsável pela proteção da cultura, pelo diagnóstico e solução dos problemas humanos. Instalada em cada um de seus fiéis, a Igreja vive com eles o problema contemporâneo da multiplicidade, fragmentação e reconstrução das identidades individuais e coletivas.

O retrato da Itália



Talvez seja esse o caso da Itália que Nanni Moretti buscou realçar. Atingida duramente pela crise econômica que divide a União Europeia desde 2008, a ainda jovem nação assiste suas matrizes definidoras da identidade diminuírem de tamanho e importância sem que se tenha construído algo para tomar seu lugar. As longínquas raízes culturais da civilização grega e do Império Romano historicamente utilizadas como elementos para fermentação de um sentimento de pertencimento mostram-se frágeis diante da perda da liderança econômica, do avanço da promiscuidade política e da invasão do público pelo privado, bem como conhecemos aqui no Brasil.
Fragmentos do nacionalismo mais agressivo construído pelo fascismo dos anos 1920 e 30 sucumbem com a fuga das empresas mais importantes do país. Mesmo o orgulho cultural consagrado, entre outros, pelo sucesso mundial do cinema de Pasolini, Visconti e Fellini, declina perante uma dívida pública de mais de 1,9 trilhão de euros, e cortes sucessivos nos gastos com a cultura. Na moda, Milão não é mais relevante como é Londres, Paris ou Nova York, e na literatura, Umberto Eco parece cada vez mais solitário na defesa das conquistas de uma Europa em paz há apenas 60 anos.
Por fim, o grande símbolo da missão universal do catolicismo italiano representado pelo Vaticano em Roma perde espaço no campo nacional e internacional para religiões evangélicas, islâmicas, entre outras. Ao mesmo tempo, a extrema direita cresce na França, Suécia, Finlândia, e Hungria estimulando o preconceito e a xenofobia que marcaram violentamente a história recente da Europa. Não sem razão, aos milhões que aguardam a saudação pública do papa, o diretor italiano de Habemus Papam reserva um imenso vazio. Ao que tudo indica, a idéia mais improvável se constituiu em representação identitária crítica e, por que não, real.
É preciso ainda mencionar a importante citação de Tchékhov através da peça “A gaivota” em cuja encenação o papa foragido se encontra com suas memórias. A falta de talento para ser ator durante a juventude o ajuda a compreender a incapacidade para se tornar a Santidade que o público espera ver atrás das cortinas. O teatro surge como o campo no qual foi possível intercambiar os tempos históricos permeados de feridas e frustrações que precisam ser resolvidas, espaço no qual a arte de contar os fatos da vida cotidiana ou mesmo as ficções, encontram as estruturas apropriadas da linguagem, da narrativa, da elaboração e transformam-se em História. Contudo, compreender este processo implica no desmantelamento de uma ideia há muito enraizada, que vê no futuro o único tempo aberto e indeterminado e omite a capacidade que o antigo possui de ser atualizado, de ser reinterpretado a ponto de influenciar decisivamente os nossos sonhos e as nossas vinganças.






Origem da vida Moderna

A EMERGÊNCIA DA CLASSE MÉDIA

     Durante a segunda metade do século XIX ocorreu na Europa um rápido crescimento tecnológico e industrial. Essas mudanças afetaram a economia, a urbanização, os costumes e o padrão de vida de um considerável número de pessoas.

     A classe média se beneficiou do progresso econômico que veio com a industrialização. O grupo passou então a valorizar a dedicação ao trabalho como forma de realização pessoal e os estudos como maneira de ascender (crescer)  socialmente.
     Aqueles que pertenciam à classe média procuravam imitar a forma de vida dos mais ricos, nas construções de suas moradias, nos hábitos culturais, na aquisição de produtos que representavam conforto ou distinção social.
     Por fazer parte da burguesia (pessoas ricas), a classe média convivia com o desafio de poder enriquecer e ascender socialmente; mas os ricos de má administração dos recursos e de empobrecimento também existiam. Uma das diferenças do mundo burguês em relação ao mundo aristocrático (classe dominante) do período anterior ao das revoluções Industrial e Francesa; é exatamente esta: o nobre poderia não ser endinheirado, mas possuía um estável prestígio político e social; os burgueses, alicerçados na liberdade e nos esforços individuais, até poderiam progredir e mudar de patamar social, mas não tinham garantia de permanecer nele.
Diferentes classes sociais


Primeiros triunfos da burguesia francesa


domingo, 27 de maio de 2012

Nos tempos de Mussolini -



Um dia muito especial (1977); Concorrência desleal (2001)
Dir.: Ettore Scola. Itália

A Itália durante a visita de Hitler, em 1938, é pano de fundo para dois filmes de Ettore Scola que retratam, de diferentes maneiras, a perseguição e a resistência na península durante o período fascista


     Primeiros dias de maio de 1938. Adolf Hitler percorre varias cidades italianas, numa visita oficial que visa estreitar ainda mais os laços que unem seu governo com o da península, liderado por Mussolini. O acordo de amizade, assinado dois anos antes entre os dois paises, e que foi recebendo logo em seguida pelo próprio Duce italiano o nome de Eixo, enaltecera os elementos que já aproximavam os dois regimes desde a tomada do poder de Hitler na Alemanha: progressiva eliminação de qualquer oposição e instauração de um regime político com partido único, autoridade concentrada nas mãos do líder (embora exercitada em meio a contínuos compromissos com vários centros de poder), supressão de uma atividade legislativa autônoma e ênfase no executivo, organização da propaganda e controle absoluto dos meios de comunicação. Os fascismos no poder se aliam e erguem uma muralha diante do mundo liberal e democrático.
Hitler e Mussolini em Florença, em 1938

Mussolini, no governo na Itália desde 1922, reduzira progressivamente os espaços de liberdade política, sindical, de expressão. Hitler, guia do Estado alemão desde 1933, reerguera militarmente o país, conduzindo-o num processo de expansão territorial sem fim: em março de 1938 a Áustria é anexada (Anschluss) ao Reich, Viena independente não existe mais. Fascistas e nazistas estão apoiando há tempo o golpe das tropas nacionalistas na Espanha republicana. Antes do fim do ano, as armas alemãs, ameaçando a integridade da Tchecoslováquia, tornarão necessária uma conferência entre os lideres das quatro potências (Inglaterra, França, Alemanha e Itália) em Munique para evitar um conflito europeu. Mas o ano de 1939 mostrará que a guerra europeia e mundial de possibilidade remota virou trágica realidade.
Um dia muito especial
     Mas voltamos a Roma, Itália, 6 de maio de 1938. Enquanto multidões em festa acolhem o Führer em sua visita à cidade, há quem não participe diretamente do evento histórico. No seu belíssimo “Um dia muito especial”, de 1977, o diretor italiano Ettore Scola conta a história de duas pessoas, Antonietta e Gabriele, que se encontram casualmente naquele mesmo dia, numa Roma quase deserta, estabelecendo entre eles uma relação de simpatia e amizade. Ela, casada com um funcionário do Estado fascista e mãe de seis filhos, dona de casa frustrada e triste; ele, locutor radiofônico que acaba de ser despedido de seu trabalho. O filme nos apresenta o encontro entre duas solidões, a da mulher que vive pelo marido e pelos filhos, numa existência sem amor e sem esperança, e a do homem, que chega a confessar sua homossexualidade, motivo pelo qual perdeu seu emprego (a discriminação do militante político de esquerda, do cigano, do africano das colônias italianas e do homossexual marca a política fascista antes até da perseguição aos judeus).
    No longa, somos apresentados ainda a duas modalidades distintas de se posicionar diante da ditadura, ambas presentes no cenário histórico da Itália de então: a aceitação, em parte convencida, em parte resignada, da situação, sem muita capacidade de crítica e refém do fascínio carismático de Mussolini (Antonietta), e a oposição ao regime de certo mundo intelectual, que tenta manifestar sua insatisfação, mas não encontra formas adequadas e eficazes, e acaba sucumbindo (Gabriele). 
Cena do filme: Um dia muito especial

     O trabalho de interpretação dos atores, Sophia Loren e Marcello Mastroianni, dois astros do cinema italiano e mundial aqui em dois papeis diferentes de seus habituais registros, e a direção primorosa de Scola (que realiza no inicio do filme um magistral plano-sequencia que nos introduz na vida de Antonietta e em sua residência) tornam a película um dos pontos altos da carreira do cineasta. O diálogo constante entre as pequenas histórias dos dois protagonistas e a história pública, ‘oficial’, que se desenrola nas ruas da cidade, registrada pela voz onipresente dos aparelhos de radio que acompanham a visita de Hitler, é o verdadeiro trunfo do filme.  Aquele que na história foi ‘um dia muito especial’, por contribuir para cimentar uma relação (Hitler-Mussolini) que levará o mundo à catástrofe da guerra, se confirma tal também para aquele homem e aquela mulher: pela amizade que realiza entre os dois, pela tomada de consciência que desperta, pelas transformações que opera em suas existências. 

Concorrência desleal

Cena do filme: Concorrência desleal

     Vinte e quatro anos e dezenas de filmes depois (entre os quais não se pode esquecer “Casanova e a revolução”, ainda com Mastroianni, em 1982) Scola volta àquele ano de 1938 e àquelas temáticas com seu delicioso “Concorrência desleal” (2001). De novo Roma, de novo 1938, então, mas agora o cenário não é um apartamento, e sim uma rua, onde, lado a lado, dois comerciantes trabalham no mesmo ramo de negócios: Umberto é um alfaiate que produz trajes sob medida, Leone é dono de uma loja de roupas prontas. Entre as respectivas famílias há laços de amizades, mas é concorrência aberta entre os dois. Concorrência ‘desleal’, segundo Umberto, pois seu rival se aproveita de suas ideias comerciais para aumentar suas próprias vendas, inclusive usando de preços mais baixos. Um detalhe importante: Leone e sua família são judeus, condição que, como para a maioria dos italianos de origem judia da época, não lhe impede uma pacifica convivência com o resto da população da rua.
     Mas estamos em 1938: Mussolini está cada vez mais ligando sua política à de Hitler (aqui também há a referência à passagem do líder nazista pela cidade, no mês de maio) e a partir de setembro varias medidas legislativas atingem os judeus, desde a proibição de freqüentar escolas publicas, até o impedimento de casar com arianos. Leone e a família são atingidos, em suas vidas e negócios. Agora a ‘deslealdade’ passa para o plano humano, existencial: por que uma identidade, uma diversidade pode se tornar fonte de perseguição? Desleal é o regime que seleciona e separa, desleal é o italiano que aponta o dedo, delata e se aproveita. Scola retoma aqui o tema da discriminação do diverso que já abordou no filme de 1977.
     Ótimos interpretes, Sergio Castellitto e Diego Abbatantuono nos papeis principais, com Gérard Depardieu como o professor antifascista irmão de Umberto, e a habitual direção de Scola, capaz de alternar os timbres  da emoção e do sorriso com os do drama, levam o longa rumo ao seu epílogo: como no de 1977, o final não é dos mais felizes, mas mostra que há lições que vêm para ficar.




DOSSIÊ - PESADELO E GLÓRIA


A sinfonia dos canhões
Dez batalhas. Não necessariamente as mais sangrentas ou as mais conhecidas. Os eventos descritos a seguir foram escolhidos por terem sido decisivos para a formação do Brasil.
Aqui estão narradas lutas travadas no campo - ou no rio, como em Humaitá - e até a tomada de Monte Castello, que nem foi propriamente uma batalha. Também estão presentes as vozes do combate e da testemunha, que fazem o passado parecer vivo, ironicamente em um tempo de destruição e morte.
Com ou sem vitória, esses confrontos tiveram seu papel na construção da história nacional, que também é feita de pólvora, chumbo e sangue.

PESADELO E GLÓRIA

A Força Expedicionária Brasileira conquistou Monte Castello enfrentando os alemães em cinco confrontos


    Em julho de 1944, desembarcaram em Nápoles os primeiros soldados da Força Expedicionária Brasileira, a única tropa latino-americana que lutou na Europa. Se a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial em 1942 deveu-se ao clamor popular causado pelo afundamento de dezenas de navios mercantes, a presença dos pracinhas na Itália atendia a três interesses do governo ditatorial da época: elevar o país no cenário internacional do pós-guerra, dar treino e armas aos militares e distrair a opinião pública, desgastada com uma década de regime de exceção.
     Poucos locais têm um significado tão especial na história das Forças Armadas brasileiras quanto o Monte Castello. Situado no Apenino Tosco-Emiliano, cerca de 50 quilômetros ao norte de Florença e a 1.000 metros acima do mar, não se trata de uma montanha destacada na paisagem, como muitos tendem a imaginar, e sim um morro com contornos difusos, rodeado por outros maiores. A FEB atacou o lugar sem sucesso por quatro vezes, três em novembro e uma em dezembro de 1944, até que a vitória sorriu após o quinto assalto, em 21 de fevereiro de 1945.
     Nenhum dos cinco ataques isolados pode ser considerado uma batalha; aliás, não houve batalhas na frente italiana após Cassino, em maio de 1944. A tomada de Monte Castello isoladamente pouco valia; era necessário que outros montes em volta, como Belvedere, Mazzancana e Torracia, também fossem conquistados. A importância do lugar residia no fato de que, com os alemães e seus canhões instalados nas cristas desses montes, era impossível para os aliados prosseguir o avanço para o norte.
     Se normalmente já há vantagens da defesa sobre o ataque na guerra moderna, isso se torna ainda mais verdade em um terreno montanhoso. Foi possível aos alemães defender eficazmente suas posições sem empregar grandes contingentes. Calcula-se que havia em Monte Castello cerca de 350 “tedescos” – os alemães na Itália, de acordo com os brasileiros – espalhados por pequenos abrigos camuflados e resistentes, cuidadosamente dispostos para maximizar o efeito do fogo. Uma só metralhadora MG 42, a melhor da guerra, podia varrer uma larga faixa de terreno a várias centenas de metros com uma quantidade de tiros assustadora – e havia dezenas delas –, além de morteiros e da artilharia situada mais atrás.
     Quanto aos soldados alemães que os pracinhas enfrentaram, há entre os brasileiros quem goste desqualificá-los, pintando-os como “velhos” cansados. É certo que a frente italiana era de quarta importância para a Alemanha,-e é natural que lá não fossem usadas suas tropas de melhor qualidade, mas é um equívoco achar que o alemão lutou mal na Itália – ou em qualquer outro lugar.  Na verdade, o exército da Wehrmacht – Forças Armadas do III Reich – era o melhor do mundo. O soldado alemão comum recebia melhor treinamento do que os oficiais anglo-americanos, o sistema de seleção e preparo dos oficiais não comissionados era inigualável e o sistema operacional tático era mais flexível e eficaz – no fim das contas, o alemão era praticamente imbatível quando lutava em condições parelhas. O fato de muitos serem veteranos exauridos da frente leste, a pior frente de batalha da história, só podia prejudicar as coisas para os adversários, pois o valor da experiência é fundamental, e nada como o clima italiano, considerado ameno pelos alemães, para uma pronta recuperação, sobretudo para quem veio das estepes geladas russas.
     Nos ataques iniciais de 24 e 25 de novembro, a FEB fez parte de uma força maior sob comando americano, a Task Force 45. Foram operações mal planejadas e executadas de modo ainda pior. No dia 25, por exemplo, um batalhão americano recuou sem avisar, expondo assim o flanco esquerdo do III Batalhão do 6º Regimento (Sampaio) ao fogo cruzado alemão, causando várias baixas. Uma vez que os soldados brasileiros nem deveriam ter sido usados, pois estavam em ação havia quase dois meses sem descanso, pode-se imaginar como foi difícil suportar essa situação sem deixar o moral despencar.
     A partir do terceiro ataque, no dia 29 de novembro, a FEB estava por si, mas continuou a empregar táticas erradas, não contando com apoio aéreo e, acima de tudo, atacando frontalmente. As baixas foram tais que um capitão, comandante de uma companhia, teve de ser substituído por um tenente no calor da luta. O moral, já claudicante, sofreu novo revés. O mito da inexpugnabilidade de Monte Castello começava a nascer entre os pracinhas.
     O ataque em dezembro foi o mais desastroso. A fim de garantir surpresa, algo difícil com os alemães situados em posições mais altas e vendo tudo, a artilharia foi dispensada e o mau tempo impediu o uso de aviões. Teimosamente, o comando da FEB insistiu em repetir um ataque frontal. Mesmo contra todas as adversidades, os brasileiros avançaram sem se importar com as baixas, chegando mesmo ao centro das defesas alemãs, mas tanta coragem não bastou, e quem não morreu ou não foi capturado recuou.
     Graças a intenso treinamento durante as longas semanas de inverno e a uma preparação mais bem engendrada, a FEB partiu para o derradeiro ataque a Castello em 21 de fevereiro, com suporte da artilharia, de aviões, e com a 10ª Divisão de Montanha do U.S.Army avançando ao lado sobre Belvedere. Sob pesado fogo dos canhões inimigos, o monte foi enfim tomado no fim do dia, enquanto os alemães se retiravam ordenadamente. A força brasileira tinha alcançado a maturidade.
    Com a vitória, a FEB respondeu com sangue e bravura à provocativa pergunta feita após o fracassado ataque de dezembro pelo general americano W. Crittenberger, comandante do IV Corpo de Exército, do qual a FEB fazia parte, sobre se a tropa brasileira tinha ou não capacidade ofensiva.


Homenagem aos pracinhas no Brasil. Acima, o espetáculo "Canta Brasil" (1945), de Luiz Carlos Peixoto de Castro, Geysa Bôscoli e Paulo Orlando, comemora a tomada de Monte Castello.

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional
Por: Luis Felipe da Silva Neves é professor da Universidade Federal Fluminense e autor da dissertação “A Força Expedicionária Brasileira – uma perspectiva histórica” (UFRJ, 1992).

DOSSIÊ - EMBARCAÇÕES BLINDADAS


A sinfonia dos canhões
Dez batalhas. Não necessariamente as mais sangrentas ou as mais conhecidas. Os eventos descritos a seguir foram escolhidos por terem sido decisivos para a formação do Brasil.
Aqui estão narradas lutas travadas no campo - ou no rio, como em Humaitá - e até a tomada de Monte Castello, que nem foi propriamente uma batalha. Também estão presentes as vozes do combate e da testemunha, que fazem o passado parecer vivo, ironicamente em um tempo de destruição e morte.
Com ou sem vitória, esses confrontos tiveram seu papel na construção da história nacional, que também é feita de pólvora, chumbo e sangue.

EMBARCAÇÕES BLINDADAS

Na Guerra do Paraguai, ultrapassar a Fortaleza de Humaitá não era nada fácil. Para isso, as tropas aliadas usaram navios poderosos


Concluída poucos anos depois do episódio, "Passagem do Humaitá" (1868-72), tela de Victor Meirelles, celebra o feito da esquadra brasileira. - Museu Histórico Nacional / IBRAM / MINC / Photo Síntese

     Disputas por território e pela livre navegação na região do Pratalevaram o Império do Brasil, a Argentina e o Uruguai a enfrentar a República do Paraguai na Guerra da Tríplice Aliança (1865-1870) – mais conhecida como Guerra do Paraguai. A área onde se deram os embates era muito pantanosa e cortada por rios de difícil navegação para navios de grande porte. No Rio Paraguai, o principal da região, os paraguaios montaram um sistema defensivo baseado numa série de fortalezas, e a de Humaitá era a mais poderosa. A maioria das embarcações de guerra do Império era inadequada para enfrentar aqueles obstáculos naturais e militares, o que exigiu um rápido desenvolvimento da tecnologia naval brasileira. O auge desse processo foi a fabricação de um novo tipo de navio.
     No século XIX, a construção naval havia sido impulsionada pela Revolução Industrial. Em pouco mais de meio século, rápidas transformações resultaram em novos navios de guerra, como o Monitor, que foi usado pela primeira vez durante a Guerra de Secessão dos Estados Unidos (1861-1865). Ele tinha casco de madeira revestido de couraça de ferro, uma torre giratória com dois canhões, e ficava pouco exposto acima da linha d’água, o que o tornava um alvo difícil para os inimigos.
     O almirante Joaquim José Ignácio (1808-1869), então ministro da Marinha e futuro barão e visconde de Inhaúma, defendeu a aquisição desse tipo de embarcação em um relatório do Ministério da Marinha apresentado ao Parlamento em 1862. Curiosamente, foi ele mesmo quem empregou pela primeira vez aquele tipo de navio em favor do Brasil anos depois. Em dezembro de 1866, Inácio substituiu oentão visconde de Tamandaré, almirante Joaquim Marques Lisboa (1807-1897), no comando das forças navais brasileiras, quando já havia uma convicção de que a Fortaleza de Humaitá era vulnerável aos navios encouraçados. Tamandaré estava certo de que o general Francisco Solano López, presidente paraguaio, temia a esquadra brasileira porque sabia “que o seu famoso baluarte de Humaitá” não poderia “resistir a um ataque de navios encouraçados”.
     Inspirada no projeto norte-americano, a Marinha brasileira incorporou à sua frota seis monitores, todos construídos no Arsenal da Corte, sob a direção de Napoleão Level, o maior engenheiro naval da época. Três deles – o Pará, o Rio Grande e oAlagoas – foram utilizados para transpor a fortaleza paraguaia, muito em função de suas couraças, de seus sistemas de armamento e, principalmente, por serem rasos. Essas características facilitavam a superação de qualquer obstáculo.
     As tropas aliadas chegaram a Tagy, acima de Humaitá, em setembro de 1867. Dez encouraçados brasileiros já haviam transposto a Fortaleza de Curupaiti em agosto, e ficaram seis meses estacionados entre essa fortificação e Humaitá, numa posição muito delicada. A dificuldade para se obter suprimentos e a vulnerabilidade aos ataques paraguaios na região eram motivos de preocupação.
     Mesmo pressionado para avançar sobre Humaitá, o almirante Joaquim José Ignácio preferiu aguardar a chegada dos monitores. A oportunidade veio em fevereiro de 1868, com a subida do nível do rio, a destruição de algumas barcaças que sustentavam correntes de ferro que atravessavam o Rio Paraguai e o próprio desgaste da fortaleza, ocasionado pelos frequentes bombardeios da esquadra. Os monitores, que chegaram à frente de combate em dezembro de 1867, ultrapassaram Curupaiti em 13 de fevereiro de 1868 e logo se juntaram aos encouraçados.
     A operação teve início na madrugada do dia 19 de fevereiro, quando uma divisão naval comandada pelo capitão de mar e guerra Delfim Carlos de Carvalho, formada pelos encouraçados BarrosoBahia e Tamandaré e pelos três referidos monitores, investiu sobre Humaitá. O feito da Marinha imperial seria exaltado ao longo dos anos seguintes, como demonstra o depoimento do veterano de guerra José Francisco da Conceição registrado na Revista Marítima Brasileira, em 1882: “Uma pequena parte da então pujante armada nacional forçou as poderosas baterias de Humaytá, até ahi reputadas como inexpugnáveis e conhecidas sob a designação de Gibraltar da América do Sul, tal era a confiança que por sua posição e seu armamento inspirava aos seus defensores e ao estrangeiro que via esse importante ponto estratégico”.
O monitor Alagoas, construído no Arsenal da Corte, como outros cinco similares. Pouco exposto acima da linha d'água, o navio era um alvo difícil para os inimigos.


    Mas, no meio da chuva de fogo em que se transformou a batalha, ocorreram alguns contratempos. O encouraçado Bahia, desgovernado, chegou a abalroar o Tamandaré e o Pará, que ficaram bastante danificados, mas prosseguiram em sua missão. O cabo de reboque que mantinha unidos o Bahia e o Alagoas foi partido por uma mina, fazendo com que o monitor, com a força da correnteza que o arrastava rio abaixo, tivesse que avançar solitário, por cinco vezes, contra o fogo concentrado de Humaitá. O Alagoas, o Tamandaré e o Barroso chegaram a ter que encalhar para não afundar. Pouco depois, assim que superou um fogo cruzado em Timbó, a frota brasileira se encontrou com a tropa aliada em Tagy, completando o cerco à fortaleza paraguaia. A conquista definitiva da posição se deu em julho de 1868.
     A Guerra da Tríplice Aliança deixou lembranças mais ligadas às memórias institucionais militares, manifestadas em efemérides e solenidades. Mas a ultrapassagem de Humaitá foi representada na pintura e na historiografia militar, por mais de um século, como uma grande epopeia, digna de ocupar o rol das proezas homéricas.  

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional
Por: Renato Restier é historiador e pesquisador do Departamento de História da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha e do Núcleo de Estudos e Pesquisas em História Militar do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB).

DOSSIÊ - PARECIA UMA TEMPESTADE


A sinfonia dos canhões
Dez batalhas. Não necessariamente as mais sangrentas ou as mais conhecidas. Os eventos descritos a seguir foram escolhidos por terem sido decisivos para a formação do Brasil.
Aqui estão narradas lutas travadas no campo - ou no rio, como em Humaitá - e até a tomada de Monte Castello, que nem foi propriamente uma batalha. Também estão presentes as vozes do combate e da testemunha, que fazem o passado parecer vivo, ironicamente em um tempo de destruição e morte.
Com ou sem vitória, esses confrontos tiveram seu papel na construção da história nacional, que também é feita de pólvora, chumbo e sangue.

Cândido Lopez retratou com fidelidade episódios da Guerra do Paraguai. Acima, num detalhe da tela sobre Tuiuti, a cavalaria paraguaia massacrada pelo fogo aliado.


PARECIA UMA TEMPESTADE

A batalha do Tuiuti foi a mais violenta de todas que o Exército brasileiro travou durante a Guerra do Paraguai





     Foi um dos embates mais sangrentos de toda a história da América do Sul. Entre todos os que foram travados ao longo da Guerra do Paraguai (1864-1870), foi o maior e, mais do que isso, decisivo em relação ao potencial ofensivo dos beligerantes. Depois de começar com sabor de derrota, a batalha do Tuiuti acabou resultando em uma grande e rápida vitória militar das forças aliadas, que reuniam Brasil, Argentina e Uruguai. Algumas poucas horas do dia 24 de maio de 1866 foram suficientes para que o embate começasse a frustrar as expectativas do general paraguaio Francisco Solano López (1827-1870).
     A história desse confronto começou alguns meses antes, entre outubro de 1865 e março de 1866, quando os paraguaios tentaram invadir os territórios brasileiro e argentino, sem sucesso. A reação dos aliados se deu logo no mês de abril, quando adentraram o território inimigo e começaram a avançar pela região do Passo da Pátria até derrotar, no dia 2 de maio, seus adversários na região pantanosa de Estero Bellaco. Logo depois, as tropas prosseguiram rumo a Assunção enquanto iam fazendo o mapeamento do território. Em uma área que ficava a cerca de dez quilômetros da confluência dos rios Paraguai e Paraná, elas acabaram montando o acampamento de Tuiuti numa pequena elevação ladeada por matas, lagoas, pântanos e zonas de escoamento natural de águas estancadas chamadas de “esteros”. Nessa posição, os aliados tinham Estero Bellaco ao sul, o Estero Rojas e a lagoa Tuiuti ao norte, uma mata fechada e a Lagoa Pires a oeste, e uma vasta região pantanosa a leste.
     Mas entre o acampamento e as posições inimigas havia, além dos obstáculos naturais, uma série de trincheiras construídas pelos paraguaios, o que fazia de Tuiuti uma posição desfavorável para as ações ofensivas. Estima-se que os paraguaios tivessem, em maio de 1866, 25.000 soldados de prontidão na região. Os aliados, por sua vez, tinham cerca de 32.000 homens, sendo 21.000 brasileiros, 9.700 argentinos e 1.300 uruguaios. Na vanguarda, eles contavam com soldados uruguaios e brasileiros, sob o comando do general uruguaio Venâncio Flores (1808-1868), com destaque para o Primeiro Regimento Brasileiro de Artilharia a Cavalo, comandado pelo coronel Emílio Luiz Mallet (1801-1886). Os argentinos, voltados para o norte e para o leste, tinham um de seus contingentes liderado pelo general e presidente Bartolomé Mitre (1821-1906). Outro importante comandante do dispositivo militar da operação era o general brasileiro Manuel Luís Osório (1808-1879), cujo quartel-general ficava no centro do acampamento.
     Aproveitando sua vantagem territorial – havia grandes fragilidades na segurança dos flancos do acampamento aliado –, os paraguaios resolveram agir. Surpreendendo seus inimigos, eles não só procuraram atacar e atingir o centro do acampamento, como também mandaram uma parte de sua tropa para a retaguarda, a fim de bloquear qualquer tentativa de retirada. A ação teve início na manhã do dia 24 de maio, quando foram usados foguetes e granadas para anunciar o ataque. Rapidamente, os batalhões uruguaios e alguns brasileiros foram derrotados.
     O general Dionísio Cerqueira, que esteve no combate e deixou relatos escritos sobre o que viu nos campos de batalha, conta que o confronto foi um verdadeiro banho de sangue. “Os batalhões avançavam; a artilharia rugia rápida, infatigável, a revólver, era um contínuo trovejar. Parecia uma tempestade. Cornetas soavam a carga; lanças se enristavam, cruzavam-se as baionetas; rasgavam-se os corpos sadios dos heróis; espadas brandidas a duas mãos abriam crânios, cortavam braços, decepavam cabeças.”
     A artilharia brasileira contra-atacou abrindo fogo, buscando o flanco do inimigo que avançava, enquanto a cavalaria paraguaia manobrava para a esquerda e avançava contra o Primeiro Regimento Brasileiro de Artilharia. Nisso, um fosso, cavado a mando de Mallet, conseguiu impedir o avanço da cavalaria paraguaia. Seguiu-se, então, um confronto direto que envolveu duelos de espadas e lanças. Do centro da posição aliada, Osório movimentou rapidamente suas tropas para que os inimigos não avançassem acampamento adentro. Mesmo assim, o general Antonio de Sampaio (1810-1866), que comandava a Terceira Divisão de Infantaria, foi gravemente ferido e morreu enquanto recebia atendimento médico. O lado argentino também passou pelas mesmas dificuldades, mas nada disso conseguiu alterar os rumos do embate. Por volta das 16h30, os aliados, enfim, venceram a batalha em Tuiuti. As perdas humanas, entre mortos e feridos, chegaram a 13.000 paraguaios e 3.931 aliados – sendo que 3.029 destes eram brasileiros.
     De acordo com o depoimento que deixou, Cerqueira, literalmente, viu a morte de perto na ocasião. “Quando acabou a batalha, tinha a minha blusa, única, rota na altura do ombro direito, por uma bala, que passou triscando a pele. (...) Era noite quando voltamos ao acampamento. Perto da minha barraca, estava estendido, com os miolos de fora, um amigo de infância, o tenente de voluntários Emídio de Azevedo Monteiro. Ajoelhei-me ao seu lado; apertei-lhe a mão gelada e dei-lhe um beijo de adeus na larga testa ensanguentada.”
     Tuiuti foi palco de outras batalhas memoráveis, mas a maior delas foi, sem dúvida, a de 24 de maio de 1866. Tanto que, depois do embate, o general Sampaio, por ter morrido em combate, tornou-se patrono da Infantaria. Da mesma forma, Emílio Luiz Mallet foi condecorado patrono da Artilharia, e o general Osório, peça-chave da reação aliada, tornou-se patrono da Cavalaria [Ver “Eternogeneral” em RHBN nº 52]. A Guerra do Paraguai, de modo geral, e a batalha do Tuiuti, em particular, legaram ao Exército brasileiro seus principais heróis de guerra.

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional
Por: Braz Batista Vas é professor da Universidade Federal do Tocantins e autor da tese “O final de uma guerra e suas questões logísticas: o Conde d’Eu na Guerra do Paraguai (1869 – 1870)” (Unesp, 2011).